19 dezembro 2008

Igreja e Culto – Parte 7

Alguns oficiais na Igreja Primitiva

Os termos “presbítero” (ou Ancião) ou “Bispo” (ou Supervisor, Superintendente) denotam no Novo Testamento o mesmo oficial, sendo que o primeiro deriva da sinagoga e o segundo das comunidades gregas; o primeiro significa a dignidade e o segundo, a tarefa.

1) A identidade destes oficias é evidente dos seguintes fatos:

A - Eles aparecem sempre como pluralidade ou como um colégio numa mesma congregação, mesmo em pequenas cidades como Filipos (Fp 1:1).
B – Os mesmos oficiais da Igreja de Éfeso são chamados de presbíteros e bispos alternadamente (At 20:17,18).
C – Paulo envia congratulações aos “bispos” e “diáconos” de Filipos, mas omite os presbíteros porque foram incluídos nos primeiro termo; assim indica o plural (Fp 1;1).
D – Nas epístolas pastorais, onde Paulo busca apresentar as qualificações para todos oficiais da Igreja, ele novamente menciona somente dois, bispos e diáconos, mas usa o termo presbítero depois de bispo (ITm 3:1-13, 5:17-19; Tt 1:5-7).
E – O intercâmbio de termos continuou a ser usado no final do primeiro século, como evidencia a epístola de Clemente de Roma (cerca de 95) e a “Didaquê”, e permaneceu até o final do segundo. (...)

2) A origem do ofício presbítero-episcopal não é relatada no Novo Testamento, mas quando ele é mencionado pela primeira vez na congregação de Jerusalém, 44 A.D., aparece sempre como uma instituição estabelecida. Assim como a sinagoga era dirigida por anciãos, de igual modo seria natural que cada congregação judeu-cristã adotasse de início esta forma de governo; talvez seja esta a razão do autor de Atos que julga desnecessário dar um relato da origem; no entanto, ele narra a origem do diaconato surgida de uma emergência especial que não tinha nenhuma analogia precisa na organização da sinagoga. As Igrejas gentílicas seguiram o exemplo, preferindo sempre o termo familiar “bispo”. A primeira coisa que Paulo e Barnabé fizeram na Ásia Menor foi organizar Igrejas pela escolha de anciãos (At 14:23; Tt 1:5).

3) O ofício de presbítero-bispo era ensinar e governar a congregação particular colocada sob sua responsabilidade. Eles eram os “pastores e mestres” regulares. A eles pertencia a direção do culto público, a administração da disciplina, o cuidado das almas e a gerência da propriedade da Igreja. Eram geralmente escolhidos entre os primeiros convertidos e indicados pelos apóstolos ou seus delegados, com a aprovação da congregação (ou pela própria mesmo), que os sustentavam pelas “contribuições voluntárias” (não é relatado no Novo Testamento a prática do “dízimo” pela Igreja primitiva). Eram introduzidos solenemente em seu ofício pelos apóstolos ou por outros presbíteros pela oração e imposição das mãos (At 14:23; Tt 1:5; I Tm 5:22, 4:14; II Tm 1:6).

4) Os anjos das 7 Igrejas da Ásia Menor podem ser vistos como idênticos aos presbíteros-bispos ou patores locais. Eles representavam os presbíteros presidentes ou o corpo dos oficiais regulares, como mensageiros responsáveis de Deus à congregação. Na morte de Paulo e Pedro, sob Nero, as congregações eram dirigidas por um colégio de anciãos. (...)

*Philip Schaff. History of the Chritian Church. Grand Rapids, Micj, Eerdmans, 1962. Vol. I, pp. 491-498.

16 dezembro 2008

Igreja e Culto – Parte 6


"A origem da Ceia"

(...) Até recentemente o conceito tradicional era que a Última Ceia fora a Páscoa, celebrada por nosso Senhor com seus discípulos pela última vez na noite de Sua traição. A evidência, porém, foi reexaminada. (...)

Uma nova proposta sustenta que a Última Ceia deriva de um simples refrigério, compartilhada semanalmente por pequenos grupos de homens judeus, geralmente por um rabino e seus discípulos. Seu propósito era prepará-los para o sábado ou para um festival e tinha um caráter religioso. Consistia numa prática religiosa seguida por uma refeição simples, de pão comum e vinho misturado com água, passando o copo um ao outro, e por orações. Esta refeição era conhecida como a “Kiddush” e se observava comumente em círculos piedosos de então, especialmente em círculos messiânicos. É quase seguro que nosso Senhor e seus discípulos estavam acostumados a participar desta refeição comunitária nas vésperas de cada sábado e festivais: assim, a “Última Ceia” foi à última delas que compartilharam.
Se a Páscoa tivesse começado na “noite em que foi traído”, nosso Senhor não teria podido ser julgado e executado neste mesmo dia, porque era contra a lei dos judeus celebrar um juízo ou uma execução durante a Páscoa. (...)

O caráter da Última Ceia era fundamente diferente da Páscoa. A Páscoa era um festival estritamente familiar; a “Kiddush” sempre era observada por um grupo de amigos homens. Durante a Páscoa se oferecia um cordeiro pascal; isto falta na Última Ceia, embora essencial para a Páscoa. Era necessário também pão sem levedo, mas na “kiddush” se usava sempre pão comum levedado; todos os relatos assinalam especificamente que na Última Ceia se comeu pão comum. Na Páscoa se usavam vários copos; na Última Ceia, como na “kiddush”, só houve um copo. Durante a Páscoa lia-se invariavelmente a passagem que narra o êxodo do Egito; não há menção alguma disto na Última Ceia.

(...) Desde o começo, a Ceia do Senhor foi celebrada com freqüência e uma celebração semanal logo se tornou prática aceita. A “Kiddush” também era celebrada semanalmente, mas a Páscoa só uma vez por ano. O costume subseqüente mostra claramente que os discípulos compreenderam das ações e palavras de nosso Senhor que deviam celebrar a eucaristia com freqüência; isto seria improvável se a Última Ceia tivesse sido a Páscoa anual e não a Kiddush semanal.
Ademais, o vinho do “kiddush” se misturava com água a moda oriental comum; e esta tem sido, exceto na Igreja Arminiana, a prática universal da Igreja ao celebrar a eucaristia.

*Willian D. Maxwell. El culto cristiano; su evolución y sus formas. Buenos Aires, Methopress, 1963. pp. 19-21.

09 dezembro 2008

Igreja e Culto – Parte 5


*Culto cristão*

O culto cristão na era apostólica

O culto cristão é a adoração pública ao Senhor Deus em nome de Cristo; a celebração da comunhão dos crentes como uma congregação com Seu Pai celestial, para a glória do Senhor e para a promoção e enriquecimento da vida espiritual. Embora se realize primariamente na devoção e edificação da igreja em si, o culto tem, ao mesmo tempo, um caráter missionário e abarca o mundo inteiro. Este foi o caso no Dia de Pentecostes quando o culto cristão, em seu caráter peculiar, primeiramente surgiu.

Assim como nosso Senhor mesmo em Sua juventude e humanidade cultuou na sinagoga e no templo, também seus discípulos o fizeram até quando foram tolerados. Mesmo Paulo pregou o Evangelho nas sinagogas de Damasco, Chipre, Antioquia da Psídia, Anfépolis, Beréia, Atenas, Corinto e Éfeso. Ele “disputou com os judeus todo sábado na sinagoga”, que ele propiciava um púlpito e uma platéia.

Os judeus cristãos, pelo menos os da Palestina, conformaram-se, dentro do possível, às formas antigas do culto de seus pais, que, na verdade, eram divinamente inspiradas e constituíam um modo expressivo de culto cristão. Até quando podemos saber, eles observaram escrupulosamente o sábado, as festas judaicas anuais, as horas de oração diária e todo ritual mosaico; e celebraram, em acréscimo, o domingo cristão, a morte e ressurreição do Senhor e a santa Ceia. Mas esta união foi gradualmente enfraquecida pela obstinada oposição dos judeus e foi finalmente quebrada por completo pela destruição do templo, exceto entre os ebionitas e nazarenos.

Nas congregações gentílico-cristãs fundadas por Paulo, o culto tomou desde o começo uma forma mais independente. Os elementos essências do culto vétero-testamentário foram transpostos, é verdade, mas despidos do seu caráter legal nacionalista e transformados pelo espírito do Evangelho. Assim, o sábado judaico tornou-se o domingo cristão; a Páscoa e o Pentecostes tornaram-se as festas da morte e ressurreição de Cristo e da efusão do Espírito Santo; os sacrifícios sanguinolentos deram lugar à recordação agradecida, à apropriação do sacrifício todo-suficiente e eterno na cruz e à oferta pessoal de oração, intercessão e total consagração ao serviço do Redentor; das ruínas do templo, surgiu o culto (sem fim temporal) do Deus onipresente em espírito e em verdade.

As Várias partes do culto

As várias partes do culto público ao templo dos apóstolos eram as seguintes:

1. A PREGAÇÃO DO EVANGELHO

A pregação aparece no primeiro período principalmente na forma de uma mensagem missionária aos inconversos; é uma apresentação simples e viva dos principais fatos da vida de Jesus, com exortação prática ao arrependimento e à conversão. Cristo crucificado e ressuscitado era o centro iluminador, cuja luz santificadora permearia todas as relações da vida. (...) Deste testemunho cristão primitivo vários exemplos de Pedro e Paulo são preservados nos Atos dos Apóstolos.

2. EXPOSIÇÃO DAS ESCRITURAS SAGRADAS

A leitura das porções do Velho Testamento, com exposição e aplicação prática, foi transferida da sinagoga judaica para a Igreja cristã (At 3:15; 15:21). A esta foram acrescidas, em tempo próprio, as lições do Novo Testamento (...). Após a morte dos apóstolos, seus escritos tornaram-se duplamente importantes para a Igreja, como substitutos para a instrução oral e exortação, e foram muito mais usados no culto do que o Velho Testamento.

3. ORAÇÃO

Em suas várias formas de petição, intercessão e gratidão. Isto veio de igual modo do judaísmo e, na verdade, pertence essencialmente a todas as religiões pagãs; agora, porém, começou a ser oferecida, em confiança pura num Pai mediado pelo nome de Jesus, a todas as classes e condições, mesmo aos inimigos e perseguidores. Os primeiros cristãos acompanhavam cada ato importante de sua vida pública e particular com este rito santo. Paulo, por exemplo, exorta seus leitores a que orem sem cessar. Em ocasiões solenes, eles participavam do jejum com oração, como ajuda à devoção, embora isto não esteja claramente estabelecido no Novo Testamento (Mt 9:15; At 13:3; 14:23; I Co 7:5). Eles oravam na liberdade do coração, como movidos pelo Espírito, de acordo com as necessidades e circunstâncias. (...) Não há nenhum traço de liturgia uniforme e exclusiva; isto seria incongruente com a vitalidade e liberdade das Igrejas apostólicas. Ao mesmo tempo, o uso freqüente de salmos e pequenas formas de devoção, como a Oração do Pai Nosso, pode ser inferida, certamente, como decorrente do costume judaico; da direção do Senhor em relação a sua oração modelo; do forte sentido de comunhão entre os primeiros cristãos e, finalmente, do espírito litúrgico da igreja antiga, que não prevaleceria no oriente e no ocidente sem o precedente apostólico. As formas mais antigas são as orações eucarísticas do “Didaquê” e a petição pelos governantes na primeira Epístola de Clemente, que contrasta visivelmente com a hostilidade cruel de Nero e Domiciano.

4. O CÂNTICO

Uma forma de oração, como adorno festivo da poesia e elevada linguagem da inspiração, levava a congregação aos altos cumes da devoção e tomava parte nas harmonias celestiais dos santos. Isto passou imediatamente, junto com os salmos do Velho Testamento, foram tesouros inesgotáveis de experiência espiritual, edificação e conforto do templo e da sinagoga para a igreja cristã. O próprio Senhor inaugurou a salmódia no novo concerto ao instituir a Santa Ceia (MT 26:30; MC 14:26 ) e Paulo expressamente exortou ao canto de “salmos e hinos espirituais ”, como meio de edificação social. Mas a esta herança preciosa do passado, cujo valor pleno foi agora pela primeira vez compreendido à luz da revelação novi-testamentária, a igreja, no entusiasmo do seu primeiro amor, acrescentou salmos, hinos, doxologias e bênçãos original e especificamente cristãos, que propiciaram o riquíssimo material para a poesia sacra dos séculos seguintes.
Acrescentou ainda: o cântico das hostes celestiais, como por exemplo, no nascimento do Salvador, o “nunc dimittis” de Simão, o “Magnificat” de Maria; a “Benção” de Zacarias; o agradecimento de Pedro após sua libertação miraculosa ; o falar em línguas na igreja apostólica que, seja oração ou cântico, era sempre uma linguagem elevada de entusiasmo; os fragmentos de hinos espalhados pelas epístolas, e as passagens líricas e litúrgicas, como as doxologias e antifonias do Apocalipse.

5. A CONFISSÃO DE FÉ

Todos os atos de culto mencionados acima são atos de fé. A primeira confissão expressão de fé é o testemunho de Pedro de que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo. O seguinte é a formula batismal trinitariana. Além destes, começou a se formar o chamado Credo dos Apostólos, que também é trinitariano em sua estrutura, mas que dá à confissão do Cristo o lugar central e mais importante. (...)

6. SACRAMENTOS

Finalmente, a administração dos sacramentos, ou ritos sacros instituídos por Cristo, através dos quais, símbolos próprios e sinais visíveis, dons espirituais e graça invisível são representados, selados e aplicados aos participantes dignos.

*Philip Schaff.History of the christian church. Grand Rapids, Mich., Eerdmans, 1962. Vol. I, pp.460-465.

02 dezembro 2008

Igreja e Culto – Parte 4

..."Liberdade de espírito e disciplina litúrgica"...

(...) O valor dos cultos cristãos mais antigos estava em coordenar harmonicamente a liberdade espiritual e a disciplina litúrgica para o alvo da “edificação” da Igreja. Indubitavelmente, existia desde o princípio o perigo duplo de apagar o Espírito ou de aceitar cegamente toda manifestação que pretendesse passar por sua. Era requerido um alto sentido de valor e ordem, para se manter o equilíbrio entre elementos tão dispares como a glossolalia e a profecia, de uma parte, e os atos e as fórmulas litúrgicas estabelecidas, de outra. (...) Esta síntese harmoniosa de liberdade e de disciplina é o que constitui a grandeza do culto primitivo e o que lhe confere seu caráter peculiar. Paulo tinha constantemente presente esta “edificação” da Igreja como corpo de Cristo; por isto, não caiu no erro de reduzir a um mínimo a vida litúrgica por temor ao formalismo, nem no de desterrar, de pronto, todas as manifestações espontâneas do Espírito por temer o sectarismo. Se a Igreja houvesse ficado fiel a essa linha de conduta, teria impedido eficazmente o nascimento de seitas e facções.

Oscar Cullmann. La fé y el culto em la Iglesia primitiva. Madrid, Studium, 1971. pp.175s.

Perguntas: * participação democrática dos membros de uma Igreja nos cultos modernos?
*O formalismo litúrgico contemporâneo dá liberdade ao Espírito para atuar nas almas famintas?

Esta tese abaixo é de Arthur Alexandre Costa Pereira – Pastor e Bacharel em Teologia. O Arthur foi meu professor de Introdução Bíblica no seminário Ceforte em Petrópolis/RJ.

Não extinguir o Espírito (I Ts 5:19).

O termo extinguir tem vários sentidos, entre eles, sufocar, apagar, limitar. Esse sufocamento tem dois níveis. O nível congregacional e o nível individual. O sufocamento em nível congregacional é promovido por aquele que dirige o culto. Existe uma herança litúrgica romana muito forte dentro da igreja de Cristo, a partir da fusão da Igreja com o Estado em 313 a.D. Os cultos na igreja primitiva eram espontâneos. Um tinha salmo, outro doutrina, outro revelação, profecia, cântico espiritual, etc. A partir da referida data, o culto passou de espontâneo a litúrgico. Uma metodologia engessada foi introduzida e os cultos foram se tornando frios até chegarem ao que hoje conhecemos por missa. O culto passou a ser fruto da mente e não algo gerado pelo Espírito de Deus. Quando o Espírito Santo consegue aquecer a igreja e esta começa a responder à Presença de Deus com adoração, línguas e orações espontâneas, o dirigente diz: “Amém; amém. Aleluia, amém”. Na verdade, o que ele está falando é: Espírito Santo fique quieto, afinal, está na hora da mensagem, que por sua vez, também costuma ser fruto do treinamento. A noiva é arrancada violentamente dos braços do Noivo em nome do programa a ser seguido. A prédica é perfeita! Os recursos homiléticos e hermenêuticos garantem a precisão exegética e expositiva da mensagem, só não conseguem produzir a unção necessária para satisfazer as almas famintas. Que pregação nossa pode substituir o que o Espírito Santo está fazendo?

A extinção do Espírito nesse nível é um câncer tão severo que em 24 de Agosto de 1662, dois mil ministros puritanos foram excluídos dos seus púlpitos pelo Ato de Uniformidade, baixado pelo Parlamento inglês, conhecido pelos evangélicos como A Grande Ejeção. A religião oficial era a Igreja Anglicana, e forçava os puritanos a se moldarem à adoração litúrgica decretada por lei. Eles preferiram o silêncio à transigência.

O sufocamento em nível individual é o fruto do sufocamento em nível coletivo. O novo crente não é ensinado a andar no Espírito. Ensinam a ele como a denominação funciona, e não como o reino de Deus funciona. Quando é tocado particularmente pelo Espírito no banco, ou no púlpito, se sente inibido, afinal, se eu levantar as mãos e começar a adorar a Deus fora do período de louvor ou se sentir vontade de me prostrar ao Senhor no corredor no meio da mensagem, o que as pessoas vão falar de mim? Se eu começar a dançar perante a Arca, Mical pode me reprovar (II Sm 6).

Alguém vai contra argumentar dizendo que o culto precisa ter ordem. Eu concordo. Nosso Deus é um Deus ordeiro, mas quando Paulo fala da ordem do culto em I Co 14, ele não está falando de liturgia. Ordem e liturgia são duas coisas diferentes. A liturgia está fora da ordem de Deus.

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28 novembro 2008

Igreja e Culto - Parte 3


...“Origens do Culto Primitivo”...
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(...) O culto cristão se diferencia de todos os demais, porque se dirige ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Seu desenvolvimento é peculiar porque o Espírito Santo está com e na Igreja para aconselhá-la e dirigi-la desde o dia de Pentecoste. É isto que dá ao enfoque histórico do culto, validade peculiar e importância prática.

O Novo Testamento foi redigido antes que o culto cristão alcançasse seu desenvolvimento pleno, porém não nos deixa sem um testemunho claro. O livro de Atos retrata a vida primitiva da Igreja, e as epístolas e o Apocalipse acrescentam outros detalhes. Quatro coisas sobressaem:

1. Pelo menos por algum tempo os cristãos continuaram participando do culto nas sinagogas e no templo;

2. Os cristãos compartilhavam frequentemente uma refeição comum conhecida como o “ágape” ou festa do amor.

3. Usualmente, ao terminar o “ágape”, e, às vezes à parte dele, os cristãos celebravam a eucaristia em obediência ao mandamento de nosso Senhor dado na última ceia.

4. Esta ação era seguida, geralmente, de profecias ou discursos em línguas, um exercício extático para o qual alguns tinham dons especiais, mas que devia ser cuidadosamente controlado, como se pode ver nas admoestações de Paulo acerca da questão. Em uma época relativamente cedo, aproximadamente na metade do segundo século, os elementos 2 e 4 desapareceram da vertente principal do culto cristão. Por conseguinte, não precisamos nos ocupar deles. Limitar-nos-emos a atentar para os dois elementos permanentes que derivam respectivamente da sinagoga e do cenáculo.

A leitura e exposição das Sagradas Escrituras em um ambiente de louvor e adoração constituíram desde o princípio um dos elementos essências do culto cristão. Esta é uma herança direta da sinagoga judaica.

Nosso Senhor mesmo, “como era de costume”, participava regularmente do culto das sinagogas; a primeira coisa que o apóstolo Paulo procurava, ao chegar a uma cidade, era à sinagoga; e os cristãos de origem judaica amavam a sinagoga e seus costumes, onde haviam adorado e recebido sua educação desde a meninice. Era, portanto, de se esperar que quando os cristãos fossem expulsos das sinagogas, seu culto seguisse linhas similares e contivesse muitos dos elementos anteriores.

Pelo contrário, o culto do Templo deixou poucos vestígios sobre o culto cristão e isto por duas razões principais:

1. A grande maioria dos judeus da Dispersão nunca participaram do culto do Templo e, mesmo na Palestina, o verdadeiro lugar do culto judaico no tempo de nosso Senhor se encontrava nas sinagogas; ademais, para os cristãos de origem pagã pouco significavam o Templo e seu culto.

2. Quarenta anos depois da morte de nosso Senhor, o Templo foi destruído pelos romanos para não ser reconstruído nunca mais; as sinagogas permaneceram. (...)

O culto cristão não era uma cópia exata do culto da sinagoga. Havia uma ênfase e um conteúdo novos de acordo com a nova revelação e para expressar o novo espírito. O centro de interesse passou da Lei para os livros proféticos. Logo, embora demorasse mais de um século para que o cânon se determinasse, as Escrituras começaram a tomar forma, incluindo as cartas e memórias dos apóstolos e de outros, coleções dos ditos e os atos de nosso Senhor Jesus Cristo, e finalmente o Apocalipse. (...)

A tudo os cristãos primitivos acrescentaram outro elemento derivado diretamente de nosso Senhor, a perpetuação em oração e comunhão sacramental da experiência do cenáculo. (...) A experiência estava carregada com o poder da ressurreição; e, em obediência à exortação apostólica, logo se tornou costume a celebração da Ceia do Senhor no primeiro dia da semana, ao raiar da manhã, na hora em que Ele se lhes aparecera, como hora do culto. O dia do Senhor não era a sexta-feira, dia da Sua morte, mas o domingo, o dia da Sua ressurreição; e a esse dia pertencia o seu mais exaltado ato de culto, no qual exibiam vitoriosamente Sua morte na eucaristia, pelo que Ele mesmo, seu Senhor ressuscitado, estava presente com eles. Não tinham nenhuma teoria da presença de nosso Senhor no sacramento tal como as que viriam dividir a Igreja em dias posteriores, mas o conheciam como um fato da experiência espiritual, como uma realidade vívida.

Reunindo, então, as referências ao culto que aparecem no Novo Testamento à luz da história posterior – um procedimento razoável já que a história prossegue – chegamos a uma descrição geral só no fim do primeiro século.

Primeiro; o que surgiu da sinagoga: lições da Bíblia (I Tm 4:13; I Ts 5:27; Cl 4:16), salmos e hinos (I Co 14:26; Ef 5:19; Cl 3:16), oração em comum (At 2:42; I Tm 2:1-2) e améns da congregação (I Co 14:16), um sermão ou exposição (I Co 14:26, At 20:7), uma confissão de fé, embora não necessariamente a recitação formal de um credo (I Co 15:1-4; I Tm 6:12) e talvez ofertas (I Co 16:1-2; II Co 9:10-13; Rm 15:26).

Segundo, geralmente junto com esses elementos, a celebração da Ceia do Senhor, derivada da experiência do cenáculo (I Co 10:16, 11:23; Mt 26:26-28; Mc 14:22-24; Lc 22:19-20). A oração de consagração incluiria ação de graças (Lc 22:19; I Co 11:23, 14:16; I Tm 2:1), recordação da morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo (At 2:42; Lc 22:19; I Co 11:23,25,26), intercessão (Jo 17) e talvez a recitação da oração do Senhor (Mt 6:9-13; Lc 11:2-4). É provável que nesta parte do culto houvesse cantos e o ósculo santo (Rm 16:16; I Co 16:20; I Ts 5:26; I Pe 5:14). Os homens e as mulheres estavam separados como nas sinagogas; os homens, de cabeça descoberta, e as mulheres, de véu (I Co 11:6-7). A atitude para a oração era por-se de pé (Fp 1:27; Ef 6:14; I Tm 2:8).

Desta maneira o culto cristão, como extressão distinta e autóctone, nasceu da fusão da sinagoga e o cenáculo, no crisol da experiência cristã. Assim fundidos, cada um contemplando e estimulando o outro, converteram-se na norma do culto cristão. O culto cristão conheceu outras formas de expressão, mas estas pertencem à periferia e não ao centro. O culto típico da Igreja se pode encontrar até o dia de hoje na união do culto da sinagoga e a experiência do cenáculo; essa união data dos tempos do Novo Testamento.

*Willian D. Maxwell. El culto cristiano; su evolucion y sus formas. Buenos Aires, Methopress, 1963. pp. 16-21

24 novembro 2008

Igreja e Culto – Parte 2


O caráter especificamente cristão dos cultos da Igreja primitiva

(...) Os cultos tinham a finalidade de edificar a comunidade como corpo de Cristo, como corpo espiritual do Ressuscitado. Como corpo de Cristo, a Igreja tomará forma em suas assembléias. Assim, ao reunir-se a comunidade se edifica a si mesma como Igreja. E como a Igreja assim edificada é o corpo espiritual do Ressuscitado, podemos afirmar também que Cristo mesmo está representado pela Assembléia da comunidade. (...)

(...) Este fim purifica o culto de todos os elementos que só satisfazem necessidades profanas, egocêntricas e humanas, mas não exclui o iluminismo que possa arrebatar ao culto sua riqueza sob o pretexto de depurá-lo. O partir do pão, a leitura das Escrituras, a pregação, a confissão de fé, as orações, as doxologias, as bênçãos, os hinos litúrgicos e espontâneos, a profecia controlada, a glossolalia e a interpretação de línguas, todos estes elementos diversos que encontramos no culto da Igreja primitiva concorrerão exclusivamente para a edificação da Igreja como corpo de Cristo. Por isto não cremos que estes elementos fazem do homem o único agente principal do culto; é a comunidade congregada que é o órgão do qual Cristo se serve para representar seu corpo como Igreja. Por isto se requerem carismas especiais para o exercício dos diversos elementos da liturgia, e a assembléia é a posse de um dom que Deus outorga aos homens. Somente na glossolalia é o Espírito mesmo que “geme” (Rm 8:26), porque nas orações e confissões, na adoração e nos hinos, e particularmente na divisão do pão, é o Senhor que atua.

(...) A ceia é o ponto culminante da qual todo o culto primitivo se centraliza e sem a qual não se pode concebê-lo. É na ceia que Cristo, o crucificado e o ressuscitado, se une a Sua Igreja e ela a Ele, na ceia Ele a “edifica” verdadeiramente como Seu corpo (I Co 10:17). Assim sendo, também todos os outros elementos do culto têm como objeto o ressuscitado, Senhor da Igreja, desta maneira, o dia da ressurreição é o dia do culto do Seu povo; por isto, a pregação não visa outra coisa senão despertar e fortalecer a fé nesse Senhor morto e ressuscitado. A leitura da Bíblia concede testemunho Dele somente; a confissão dos pecados apela à expiação e a reconciliação, obras Suas; a oração é, antes de tudo, uma súplica para que venha, gloriosamente ao fim dos tempos, mas que antecipe já esta vinda com Sua aparição na Igreja congregada.

O culto primitivo é essencialmente uma criação do Espírito Santo. Assim vemos porque no centro da assembléia cristã está o Senhor atual da Igreja que, de uma parte, remete ao Jesus histórico crucificado e ressuscitado, e, por outra, anuncia o Cristo que virá. O que caracteriza o Espírito Santo segundo a doutrina novi-testamentária é, efetivamente, que Ele condiciona o presente no desenvolvimento do período da salvação, e que vem apregoar antecipando já o fim, o porvir, sobre a base do que no passado se realizou em Cristo. Essa essência do Espírito Santo pode ser percebida de modo claro no culto da Igreja primitiva. Nele se realiza a partir de Cristo no presente, tudo o que se manifestará no momento da parousia. (...)

A Igreja cristã é o lugar do Espírito Santo e Ele se manifesta de maneira particular nos cultos dos primeiros tempos. É verdade que os mistérios gregos e sua intensa vida litúrgica conhecem também o Espírito. Entretanto, Ele era entendido como a transcendência penetrando na imanência. Por seu lado, na Igreja é o futuro que se realiza no presente sobre o fundamento passado; em outras palavras, é o cumprimento da esperança futura, antecipada no culto da Igreja. Este caráter temporal do Espírito Santo se reflete na essência mesma do culto cristão, razão por que não se trata da representação de um mito, já que a ação presente de Cristo está firmemente ligada aos fatos históricos do passado e aos que a Igreja aguarda para o futuro.

*Oscar Culmann. Lá fé y el culto em la Iglesia primitiva. Madrid, Sutidium, 1971. pp. 177-179

21 novembro 2008

Igreja e Culto - Parte 1

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Nos próximos meses estarei postando aqui no “Entendes tu o que lês?” sobre a História do Cristianismo!

Vou apontar ligeiramente alguns aspectos da história da igreja, especialmente: evangelização (estratégia da expansão e teologia missionária), política (a relação da igreja com o estado) e culto (desenvolvimento litúrgico e organização formal da igreja).

* IGREJA E CULTO (Novembro-Dezembro)
* IGREJA E POLÍTICA (Janeiro)
* IGREJA E EVANGELIZAÇÃO (Fevereiro)

Será um estudo que tem por finalidade levar nossos amigos leitores a enxergar o grande abismo entre o verdadeiro ideal da igreja cristã e o estado presente de omissão, hierarquização e aburguesamento (com raras exceções).

Necessariamente alguns textos serão controversos. Deles discorde. Essencialmente alguns textos induzirão os nossos pressupostos. A partir destes, discuta. E aos que existirem erros, denuncie!

Agora se alguém reconhecer que os escritos são verdadeiros, não os ignore.

A organização da Igreja Primitiva



As normas exatas da comunidade cristã no primeiro século, assim como a existência de formas, foram e são temas de debates. Isto em parte se explica que nas gerações seguintes os cristãos buscavam na organização do cristianismo primitivo a autoridade para a estrutura de sua seita particular da igreja. Explica-se também pelo caráter fragmentário das evidências, que por isto não nos levam a conclusões incontestes.

Nas duas ou três primeiras gerações, a comunidade cristã apresentava grande variedade. Não existia nenhuma administração central como meio de agrupar as muitas unidades locais da igreja em uma estrutura articulada e única. A igreja de Jerusalém, como o centro inicial de fraternidade cristã, tratou de exercer alguma forma de governo, especialmente na questão muito discutida do grau de ajustamento à lei judaica. Até certo ponto, prestava-se atenção à lei, talvez devido ao respeito mostrado diante das autoridades judaicas estabelecidas em Jerusalém pelas comunidades judaicas de outras partes do mundo gentílico, mas não existia nenhuma maquinaria administrativa para uma superintendência geral. Sua autoridade foi antes de prestígio do que de lei canônica. Sob estas condições, não existia nenhum modelo uniforme de prática e governo eclesiásticos.

Antes que se fechasse o primeiro século, a igreja começou a ensaiar certos passos no sentido da organização que, uma vez desenvolvidos, persistiram, embora com algumas alterações, até o século 20. Sabemos que havia ofícios e oficiais. Proeminentes entre estes eram os diáconos, anciãos e bispos.

Sustentava-se, ao princípio, que o precedente para a eleição de diáconos havia de se fundamentar na eleição dos sete, feito pelos doze apóstolos nos primeiros tempos da igreja de Jerusalém, para fazer frente à distribuição diária de provisões ás viúvas. Embora a relação histórica entre “os sete” e o diaconato de dias posteriores não tenha sido demonstrada plenamente e no Novo Testamento jamais tenhamos menção clara referente à existência de diáconos na igreja de Jerusalém, é indiscutível que depois de uma geração ou duas, em algumas das unidades ou igrejas, os diáconos eram considerados como oficiais característicos sendo provável que tanto mulheres como homens servissem neste ofício.

Pode ser que o ofício de presbítero ou ancião tenha sido sugerido pela organização da sinagoga, onde os anciãos eram parte integrante da estrutura eclesiástica. Pelo menos em várias igrejas locais, houve mais de um bispo e a evidência parece apoiar a idéia de que, em princípio, em algumas, e, talvez em todas as igrejas, os títulos de “ancião” e “bispo” eram permutáveis dentro do mesmo posto oficial.

A uniformidade na estrutura eclesiástica não se conseguiu imediatamente. A primeira menção que se faz a cerca do que parecem ser oficiais ou dirigentes na grande igreja gentílica de Antioquia se refere a profetas e mestres, mas de diáconos, anciãos e bispos nada se fala. Em uma de suas cartas, Paulo não diz nada expressamente em relação a diáconos, anciãos ou bispos, embora algumas de suas palavras possam ser interpretadas neste sentido, mas ele fala de apóstolos, profetas e mestres. Em sua epístola aos Romanos se mencionam profetas, ministros, mestres, exortadores, doutores (talvez diáconos) e presidentes; segundo parece ser a ordem familiar a Paulo. Em outra epístola, a lista é: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Na primeira geração da igreja de Jerusalém, Tiago, irmão de Jesus, era considerado como líder, mas só mais tarde foi-lhe dado o título de bispo. Parece certo também que a igreja de Jerusalém tinha anciãos. (...)

*Kenneth S. Latourette. História del Cristianismo. El Pasò, Casa Bautista de Publicaciones, 1967. Vol I, pp. 158-161.