13 maio 2008

O Deus bailarino


O que acreditamos a respeito de uma coisa determina a maneira como nos relacionamos com ela. Eu, por exemplo, gosto de brincar com cachorros, mas se percebo que um cachorro é bravo, fico longe dele; mas se é brincalhão, chego perto. Assim é também com o mundo. Antigamente, acreditava-se que o mundo era uma estrutura hierarquizada, sempre do mais complexo ou poderoso para o mais simples ou fraco, sendo que Deus ocupava o topo da pirâmide. O imaginário das pessoas era construído a partir das relações entre reis e súditos, senhores e escravos, generais e soldados, e assim por diante. Cada um tinha seu papel e quase todo mundo se respeitava. Naquela época, a Igreja tinha autoridade, e quem não concordava com o que ela dizia morria na fogueira - mesmo que essa Igreja dissesse que índios e escravos não tinham alma e que o sol girava ao redor da Terra.


Quem acredita numa realidade estruturada a partir de autoridade e poder acha que a fé em Deus resolve tudo; afinal de contas, “agindo Deus, quem impedirá?”. Basta orar com fé e esperar a cura, a prosperidade, a volta do marido, a libertação do filho, enfim, a solução de qualquer problema. Deus manda, o resto obedece. Tudo quanto se tem a fazer é aprender os truques para fazer Deus mandar exatamente o que a gente quer que ele mande. Surgem então as correntes de fé e as ofertas compensadoras da falta de fé, e, principalmente, os gurus que sabem manipular Deus em favor de quem paga bem. Feitiçaria pura.

Copérnico, Galileu, Newton, Einstein e sua teorias científicas fizeram com que o mundo passasse a ser visto como uma máquina, ou como um relógio, sendo Deus o relojoeiro. Neste mundo-máquina, tudo pode ser decodificado, explicado e controlado. As coisas funcionam em relações de causa e efeito previsíveis, como por exemplo as estações do ano, as fases da lua, os movimentos das marés, a órbita dos planetas e os eclipses solares. No dia-a-dia, estas relações também são previsíveis: a partir de informações sobre massa, força, aceleração e direção, sabemos calcular em quanto tempo o carro vai se chocar contra o poste, ou qual bolinha vai acertar a amarela e qual delas vai cair na caçapa.

No mundo-máquina é possível também consertar quase tudo. Quando seu microondas pára de funcionar, basta chamar um técnico e ele vai dizer qual peça deverá ser substituída. O problema é que quem acredita que o mundo funciona assim acaba extrapolando isso para todas as suas relações: o casamento quebrou? Seu filho está dando trabalho? A vida não está funcionando? Então, basta chamar o especialista. Quase tudo tem conserto e pode voltar a funcionar como antes. Mais do que isso, se é verdade que as relações de causa e efeito obedecem precisão matemática, basta apertar o botão certo que as coisas acontecem. Quer fazer discípulos? Quer fazer a igreja crescer? Quer evitar problemas na família? Quer garantir uma boa carreira profissional? Então, basta fazer o curso certo, encontrar o método indicado, seguir as regras apropriadas. Logo, “A” sempre conduz a “B”. Caso você faça “A” e o resultado não seja “B”, então você pensa que fez “A”, mas não fez. O mundo-máquina é assim: tudo sempre funciona direitinho – você é que nem sempre funciona.

Desta compreensão é que surgem o fenomenal ministério para fazer a igreja funcionar com propósitos; a estratégia de sete passos para fazer o ministério ser relevante; as quatro leis espirituais para ganhar a vida eterna; as técnicas de ministração para libertação espiritual e cura interior; os grupos de 12 para fazer o rebanho se multiplicar. É apostila para tudo quanto é coisa, curso para tudo quanto é treco e guru especialista para tudo quanto é tranqueira. Quase todos bem intencionados, mas geralmente funcionando como se o mundo fosse mesmo uma máquina.

Mais recentemente apareceram no cenário algumas teorias elaboradas a partir de outras percepções das ciências da física e da biologia. Na mecânica quântica, os movimentos não são tão previsíveis quanto na mecânica newtoniana. Então, o mundo já não é uma hierarquia nem uma máquina, mas um organismo vivo. As palavras mais adequadas para descrever a realidade são “teia”, “rede”, “arena”, e até mesmo “dança”. A realidade é complexa e os fenômenos naturais e sociais não são previsíveis nem manipuláveis. As pessoas são singulares. Basta verificar que dez pessoas que ganham na loteria reagem de dez maneiras diferentes. Os relacionamentos também são singulares. Dez casais que ganham um filho reagem de dez maneiras diferentes. Da mesma forma, dez igrejas que iniciam um projeto reagem de dez maneiras diferentes. Seres vivos não são padronizáveis. Eles não obedecem relações exatas de causa e efeito. Seres vivos não são coisas. E a vida não é exata.

Quem acredita no mundo como um ser vivo onde cada ser e cada relação é singular, não consegue se submeter a esquemas, não tem a pretensão de gerenciar pessoas, não confia em métodos e nem se impressiona com números, estatísticas e probabilidades. Prefere outros caminhos. Escolhe o caminho da intimidade com o outro; encanta-se com o mistério do sagrado; maravilha-se com a diversidade; presta atenção no jovem em conflito; ouve os dramas do homem que não pára em emprego; fica em silêncio diante da dor e se ajoelha para orar antes de dar um passo sequer em qualquer direção. Esses não se dão muito bem com o Deus-general, ou o Deus-relojoeiro. Curtem mais o Deus-bailarino.

*Ed René Kivitzé escritor conferencista e pastor da Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo

02 maio 2008

“não é sabedoria que desce lá do alto; antes é terrena, animal e demoníaca”

“ Para que não vos corrompais e vos façais alguma imagem esculpida na forma de ídolo, [...] semelhança de algum animal que há na terra, semelhança de algum volátil que voa pelos céus” (Deuteronômio 4.16-17).



A história que vou narrar é coisa de nordestino escaldado pelo sol, sertanejo trabalhador, gente simples, cabra-da-peste e iludido pela igreja da maioria.


Conheço muitas cidades do interior nordestino e a maioria tem uma igreja católica na praça central e um cruzeiro no monte mais alto. É nossa herança portuguesa que vem dos tempos das caravelas.


Além dos cruzeiros, visitei nos topos dos montes em Juazeiro do Norte, no Ceará, e Guarabira, na Paraíba, monumentais estátuas, respectivamente do padre Cícero Romão Batista (veja o artigo Uma Viagem ao Caldeirão da Idolatria) e do frei Damião (veja o artigo Misericórdia! Querem Canonizar o Frei Damião). Esses homens tornaram-se verdadeiros “santos milagreiros” para os católicos nordestinos. No entanto, o querido pastor Josenildo Virgolino, que tem um ministério em áreas inóspidas do nosso sertão, certa ocasião me falou que deveria conhecer a pequena cidade de Carnaúba dos Dantas, no Rio Grande do Norte, pois lá os potiguares adoravam algo diferente sobre o monte principal – um galo! Fiquei curioso e indaguei: “Ôxente? Adoram um galo?” Pensei com meus botões: isso é coisa mais para a Índia do que para o Brasil. Entrei em devaneio: “Será que temos uma conexão secreta indiana em pleno interior nordestino?”


Passei mais de um ano, sempre que tinha uma folguinha, estudando sobre essa cidade e me programei para conhecer aquela paragem na semana dita “santa” de 2006. No dia programado, imprimi da internet um mapa rodoviário daquela localidade, arrumei minha mochila, sem esquecer de incluir a máquina fotográfica digital do meu filho Renato e fui com Marcos Nunes, um irmão em Cristo, passar três dias na Região do Seridó, conferindo os fatos.


Viajamos mais de 500 quilômetros, do Recife a Carnaúba dos Dantas, e nos hospedamos na Pousada Água Doce, oficialmente a única no povoado. A reserva foi feita na base do “deixar recado”, já que a pousada não tem linha telefônica e internet ali é bicho de sete cabeças. Deixei o recado ao telefone da prefeitura, a prefeitura mandou alguém andando até a hospedaria e depois de uma semana liguei novamente para a prefeitura e me confirmaram a reserva de um quarto duplo. Nessas bandas do sertão do Seridó, a palavra do homem ainda vale tanto quanto um documento autenticado em cartório. Tudo saiu a contento.


A pousada é um casarão mimoso e aconchegante com sete quartos forrados a gesso. Cada quarto com um ventilador em cima de uma cômoda, com banheiro sem chuveiro elétrico (e quem precisa de água quente nesse sertão?). Nem o calor de lascar, a falta de ar-condicionado e a ausência de frigobar me incomodaram. Estava feliz por estar ali, pois essa hospedagem fica localizada bem aos pés do Monte do Galo, exatamente onde queria estar, no fuzuê da romaria.





Nosso guia turístico, Manoel Messias, no sítio arqueológico Xiquexique IV com suas pinturas rupestres (foto ao lado).




Carnaúba dos Dantas: sítios arqueológicos com pinturas rupestres e lendas sobre vários montes da região


É uma pena que apenas poucos brasileiros conheçam essa região, cercada de serras, ao sul do Rio Grande do Norte, a 227 quilômetros da capital Natal. É uma cidade cercada de uma paisagem encantadora, rica em belezas naturais, com menos de 7.000 habitantes, onde quase todos são parentes e se conhecem bem.

O município possui dezenas de sítios arqueológicos catalogados com suas pinturas rupestres e isso tem atraído algumas universidades nordestinas que ali fazem pesquisas.

Lá existe a Serra das Rajadas com fontes de água no seu sopé. Conta-se a lenda que um carneiro dourado salta do cume da Serra das Rajadas para a Serra do Marimbondo e que existe um tesouro incrustado na serra.



Marcos Nunes na Pedra do Dinheiro (foto ao lado).





Há também a Pedra do Dinheiro. Diz a lenda que os antigos moradores da região viam, à noite, um carneiro de ouro encantado no topo da Pedra e que ao redor dela há várias botijas de ouro enterradas. Fui até lá, mas devo ter chegado atrasado, pois não encontrei nenhuma botija para levar comigo.

No entanto, o monte mais famoso é o antigo “Serrote Grande”, que depois passou a ser chamado “Serrote do Galo” e hoje “Monte do Galo”, com “santuário” fundado em 1927. Conta-se várias histórias sobre esse monte. Uma delas registra que há muito tempo vaqueiros, tropeiros e viajantes que passavam por essas bandas ouviam o estridente canto de um galo vindo do topo do “Serrote Grande”. Isso os deixava assustados, pois ali não havia casas e nem habitantes. Algum tempo depois, pulou uma cabra do cume do Serrote, desaparecida há uma semana, sem sofrer qualquer dano em conseqüência da queda. Essa história do canto do galo e do salto da cabra passaram a disseminar-se pela região e, assim, devotos começaram a considerá-lo um “monte santo”.

Uma nova trindade no“santo” Monte do Galo

É bom repetir que o nome do monte é do “Galo” e não da “Santa”.

O autor (foto) iniciando a subida da rampa de acesso ao Monte do Galo (ao fundo).

Marcos Nunes e eu subimos o monte, juntamente com centenas de romeiros, às 09h20min da manhã ensolarada da sexta-feira da paixão. É uma infra-estrutura bem montada com uma rampa, com piso cimentado, de mais ou menos um quilômetro, que vai tornando-se cada vez mais íngreme à medida que nos aproximamos do topo.

Ao longo da rampa, do lado direito ficam as estações da via sacra católica com locais para os fiéis depositarem suas ofertas. Do lado esquerdo, terços, artesanatos, santinhos, blusas, bonés, água mineral, entre outras bugigangas, estão à venda nas barracas. O artesanato mais comum é uma réplica em miniatura do topo do monte, em madeira, com o “Galo”, Jesus crucificado e “Nossa Senhora das Vitórias”: uma nova trindade católica potiguar.

Quando a rampa termina, é necessário enfrentar dois lances de escadas com dezenas de degraus (e haja fôlego!) que culminam diante de três estruturas: à nossa esquerda temos Jesus crucificado com “Nossa Senhora das Vitórias” aos seus pés, no centro um cruzeiro e à direita a “gloriosa” estátua do galo branco com crista vermelha. Além dessas estruturas, no cimo do monte existe uma capelinha e a sala dos ex-votos onde os romeiros deixam objetos como agradecimentos pelas bênçãos alcançadas. É esse o principal ponto turístico religioso do Rio Grande do Norte onde anualmente milhares de pessoas vêm pagar promessas e agradecer as bênçãos recebidas.
Uma nova trindade potiguar: o “Galo”, Jesus crucificado e “Nossa Senhora das Vitórias”(foto).
Trata-se de um verdadeiro santuário de romaria dos seridoenses. Observamos muitas pessoas venerando e pagando promessas à “Santa”. O “Galo” tem uma altura mediana de 1,55 metros e está localizado em cima de uma estrutura rochosa alta que apenas pessoas fisicamente bem condicionadas conseguem escalar. Enquanto estivemos no topo do monte, vimos várias pessoas admirando o “Galo”, mas não vimos ninguém adorando-o abertamente, até porque não existe nenhum local onde se possa ficar de joelhos diante do “Galo”.

Dá para perceber que toda a romaria gira em torno do “Galo” e do seu monte “santo”. É uma galomania! É como se o “Galo” fosse o ator principal, a “Santa” uma atriz coadjuvante e Jesus apenas um atorzinho figurante.

Infelizmente, a veneração e adoração ao “Galo” existem

Ao descer o Monte do Galo, entrevistei calmamente, durante os dois dias seguintes, quinze pessoas. Cinco eram líderes católicos: dois casais e uma solteirona, todos com mais de 50 anos de idade. Os outros dez eram evangélicos com menos de 45 anos de idade.

Todos subiram, pelo menos algumas vezes, o Monte do Galo. Todos agradeceram a “Santa Nossa Senhora das Vitórias” por bênçãos alcançadas ou pagaram promessas à “Santa”. Apenas um dos quinze pesquisados confessou ter feito também um pedido ao “Galo”. Extrapolando a minha minguada pesquisa para um universo maior, podemos inferir que uma em cada quinze pessoas que sobe o morro faz pedido ao “Galo”. Ou seja, 6,6% dos romeiros locais veneram o “Galo”. Esse percentual, na verdade, deve ser bem maior, uma vez que a veneração e o pedido ao “Galo” não são públicos e, sim, mentais (o romeiro os faz de forma disfarçada, para não ser ridicularizado). Por exemplo: presenciei dezenas de pessoas venerando a “Santa” e dezenas de outras apenas admirando o “Galo”. Não tenho a mínima idéia do que esse segundo grupo pensava enquanto contemplava o “Galo”. Só Deus sabe se estavam ou não venerando-o.






Marcos Nunes chegando ao topo do Monte do Galo (foto ao lado).


Renato José da Silva é natural de Carnaúba dos Dantas, nasceu no dia 19 de abril de 1987 e, como todos os outros entrevistados, é oriundo de uma família tradicionalmente católica. Aos dez anos de idade foi vítima de um traumatismo no olho esquerdo, causado por um guidom de bicicleta. Renato narra que sua mãe (Maria do Socorro da Silva) correu à igreja católica e pediu ao padre que rezasse para que o filho não perdesse a visão. O padre rezou e orientou que o menino Renato deveria subir o monte de joelhos e rezar “cinqüenta ave-marias e cinqüenta padre-nossos”. Ao chegar em casa, sua mãe lhe fez uma mortalha, um tipo de túnica, ele subiu de joelhos até o topo e lá rezou suas cem preces para a “Santa” e para o “Galo”. Insisti, perguntando se foi o padre que orientou a sua mãe a instruí-lo a rezar simultaneamente à “Santa” e ao “Galo”. Ele respondeu que não sabe se foi o padre, mas que ao chegar lá em cima, mentalizou suas preces tanto para a “Santa” como para o “Cocoricó”, e que tinha certeza que rezou a quantidade certinha, pois contou tudo no terço que tinha nas mãos. Perguntei-lhe se solicitou alguma bênção. Renato relatou que, a mando da sua mãe, pediu à “Santa” e ao “Galo” para “abençoar sua família e que nunca permitisse que ele viesse a ingerir bebidas alcoólicas”.

No entanto, a “Santa” e a “Ave Galinácea” de concreto são fracos, pois Renato relata que aos 15 anos de idade, enquanto brincava com amigos, tomou um porre que totalizou cinco litros de cachaça em uma só noite. Nem o macho da galinha suportaria uma dose dessas!

Renato aceitou Jesus como seu Salvador pessoal há dois anos e está preparando-se e muito desejoso para ser batizado e fazer sua pública profissão de fé na igreja batista local.

Renato José da Silva: “Cinqüenta ave-marias e cinqüenta padre-nossos para o Galo e a Santa”. Seta preta indicando a cicatriz no seu joelho direito (foto).

Hoje, Renato tem 19 anos e é zelador da Pousada Água Doce. Daquele dia patético em que subiu de joelhos o Monte do Galo, guarda para o resto da vida uma cicatriz no joelho direito. Perguntei se estava animado e firme na sua nova fé e prontamente me respondeu: “Em nome de Jesus!” Mais tarde, naquela mesma noite, sentou-se na cadeira ao meu lado no terraço da pousada, enquanto observávamos um toró com relâmpagos e trovões, abriu orgulhosamente sua Bíblia novinha e leu para mim Josué 1.8, que diz: “Não cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido”. Que Deus te proteja, te abençoe e te conserve no caminho dEle, Renato!

Liderança religiosa opina sobre a veneração ao “Galo”

Marcos Nunes e eu fomos conhecer a senhora Maria Lúcia de Medeiros, conhecida na cidade como “Taúta”, que completa 70 anos em 2006 e que nos recebeu espontaneamente e de bom grado em sua residência para uma entrevista. Solteirona, simpática, devota de São José (o padroeiro da cidade) e de N. S. das Vitórias (padroeira do monte), auxiliar da pastoral da criança, catequista desde os 13 anos de idade e ministra extraordinária da eucaristia, é uma referência católica na cidade.

Impedida pela artrose nos membros inferiores, hoje não consegue mais subir o Monte do Galo para venerar a “Santa”. Perguntei, entre outras coisas, se a igreja católica considerava o “Galo” um santo. Dona “Taúta” assegurou-me: “O lugar do monte é santo, mas o galo não. E a veneração é só a Nossa Senhora das Vitórias”.

Perguntei se corrigiria algum romeiro que afirmasse para ela que subiu o monte e venerou a “Santa” e o “Galo”. Respondeu-me: “Se o romeiro tem fé no Galo, tudo bem. Não iria corrigir o romeiro do Galo. Não iria dizer que ele estava errado. Eu respeitaria a fé do romeiro, mesmo não concordando com ela”.

Em seguida, fomos até um minúsculo povoado chamado Ermo (nome bastante sugestivo para o local) pertencente a Carnaúba dos Dantas e localizado a dez quilômetros de distância. No Ermo quase não existe asfalto nem pressa, as pessoas têm uma prosa mansa, gostosa e a vida parece passar lentamente por ali.

Lá conhecemos o casal Francisco Adelino Filho e Maria de Lourdes Adelino, casados há 38 anos, que reside em uma casa construída em 1868 (hoje bastante reformada). Eles afirmam ter hospedado algumas vezes o famoso e polêmico frei Damião (1898-1997). Identificamo-nos e o casal também nos recebeu espontaneamente em sua residência para uma rápida entrevista. Francisco contou orgulhosamente que seu pai foi quem doou o terreno para a construção da igreja católica local, que foi fundada em 1937.

O pastor Silvany com sua esposa Maria do Socorro e sua filha Vanessa (foto).

Hoje, devido a problemas de saúde, o casal não consegue mais subir o Monte do “Galo”. Porém, Francisco não deixa passar a oportunidade de dizer que subiu o monte de joelhos, à época em que a subida era de barro, para pagar uma promessa à “Santa” por uma graça alcançada. Tinha ficado curado de uma “bronquite asmática”, assegura.


Maria de Lourdes Adelino é devota de “Nossa Senhora das Graças”, auxiliar da pastoral da criança, catequista, ministra extraordinária da eucaristia e conhecida no povoado como uma católica fervorosa.

Fiz a esse casal a mesma pergunta feita a dona “Taúta”: se corrigiria o romeiro que declarasse para eles que subiu o monte e venerou a “Santa” e o “Galo”. Responderam-me: “Não corrigiríamos o romeiro que adorou o galo, respeitaríamos a sua fé. Mas, esperaríamos que no futuro pudéssemos ter uma oportunidade de educá-lo na veneração correta”.

Consultamos também o pastor batista local, Silvany da Silva, que tem um ministério na região do Seridó há quase uma década. Perguntamos se havia realmente a veneração ao “Galo” no monte e Silvany foi bastante direto: “Ninguém viaja para cá só para subir um monte e ver uma santa, isso existe em muitas outras cidades! O foco aqui é o galo! O monte é do galo! Na mente do romeiro, o referencial de milagre, bênção e promessa alcançada é mesmo o galo!”

Concluímos, portanto, que a adoração ao “Galo” de fato existe, mas é clandestina e praticada pelos romeiros mais humildes. No entanto, o mais grave é que a igreja católica local não censura publicamente esse tipo de veneração.

A igreja católica não apóia, mas também não censura

Que tempo esse em que vivemos! No sertão nordestino estamos diante de acontecimentos inexplicáveis, ou melhor, “explicáveis” demais.

É claro que, muitas vezes, a mentira foi a base do sistema político-religioso da igreja católica, infiltrada nos labirintos do Vaticano. Claro que não nos esquecemos da Inquisição, das indulgências, do apoio camuflado do papa Pio XII a Adolf Hitler e de uma enxurrada de padres pedófilos. Freqüentemente, as leis católicas até parecem proteger os crimes e regulamentar os conteúdos dos seus próprios intestinos.


O autor com sua mão direita na abertura da “Caixa das Almas” (foto).


Os fatos reais: no topo de um monte em Carnaúba dos Dantas existe a adoração a um “Galo” em área “santificada” pela igreja católica e ela não manda retirar nem a “Santa” nem o “Galo” de lá. A igreja age como uma psicopata, nega e ignora que exista uma veneração ao “Galo”. E quando alguém confessa que adorou a ave, faz vista grossa e não corrige o ingênuo. Parece que não é necessário dar alguma racionalidade à adoração. Deixando do jeito que está, as romarias estão trazendo bons dividendos para a Igreja Católica Apostólica Romana.


Ao lado da estrada, em uma das entradas da cidade, existe até uma caixa de concreto a “Nossa Senhora das Vitórias” com uma abertura onde o romeiro pode deixar a sua oferta e o seu pedido. Pela abertura dá para depositar, mas é praticamente impossível retirar alguma coisa de dentro da caixa, a não ser para quem tem a chave da sua portinha. Os moradores locais chamam-na de “caixa das almas” por poderem deixar uma oferta ou pedido em prol da alma de um ente querido.

Infelizmente, a igreja da maioria parece querer o romeiro cada vez mais burro e submerso no maremoto de mentiras. Enquanto isso, o tilintar das moedas continua bem-vindo na igreja e o “Cão” (ops!), digo, o bicho no cume do monte continua agindo livremente.

O “Cocoricó” versus Jesus Cristo

Ah! Como a Palavra de Deus é farta no quesito de reprovação à idolatria.

Um grupo de irmãos em Cristo, oriundos do catolicismo roxo, hoje convertidos ao Senhor Jesus, saindo da igreja para evangelizar a cidade. Blusas laranjas com o título do livro de Norbert Lieth: “Conheça Jesus: Único, Incomparável, Maravilhoso” (foto).


Qualquer evangélico que já viu a estátua do padre Cícero, em Juazeiro do Norte; a do frei Damião, em Guarabira e a do Galo, em Carnaúbas dos Dantas, faz quase imediatamente uma analogia daqueles locais com o bezerro de ouro descrito no livro do Êxodo, capítulo 32. Tememos sobre as conseqüências desses atos de idolatria, quando lemos: “Então, disse o Senhor a Moisés: Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu e depressa se desviou do caminho que lhe havia eu ordenado; fez para si um bezerro fundido, e o adorou, e lhe sacrificou, e diz: São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito. Disse mais o Senhor a Moisés: Tenho visto este povo, e eis que é povo de dura cerviz. Agora, pois, deixa-me, para que se acenda contra eles o meu furor, e eu os consuma; e de ti farei uma grande nação” (Êxodo 32.7-10).

Esses memoriais de concreto armado são inúteis para nos salvar. “Os ídolos das nações são prata e ouro, obra das mãos dos homens. Têm boca e não falam; têm olhos e não vêem; têm ouvidos e não ouvem; pois não há alento de vida em sua boca. Como eles se tornam os que os fazem, e todos os que neles confiam” (Salmos 135.15-18).


O já citado pastor Silvany da Silva sentencia: “As romarias têm sido uma grande cadeia que o diabo lança sobre o povo sertanejo. O diabo tem feito do sertão nordestino um laboratório de desgraças e destruição moral, ética e espiritual. Durante anos a igreja católica tem mantido o povo oprimido e preso à miséria e à autoflagelação. Muitos sertanejos já perderam suas vidas fazendo romarias, viajando centenas de quilômetros em cima de caminhões, a pé e de joelhos (pagando alguma promessa). Outros doaram suas terras à paróquia da sua cidade. Missas, casamentos e batizados sempre são pagos pelos fiéis”.

Há cerca de duzentas pessoas em Carnaúba dos Dantas que já escolheram Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador pessoal, segundo as estatísticas do próprio pastor Silvany da Silva. Não dobram mais os joelhos diante de “Santo”, “Santa”, “Galo” ou qualquer outra imagem de escultura. Pessoas que introverteram a Palavra de Deus e vivem obedecendo-a dia a dia: “Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra” (Êxodo 20.4).

Conheci um pequeno grupo desses fiéis, numa tarde de sábado, antes de sairem para evangelizar de porta em porta pela cidade. Ouvi testemunhos marcantes de alguns deles (todos sofreram perseguições após suas conversões) e tirei fotos do grupo – nossos heróis na fé. Alguns usavam blusas de cor laranja naquela tarde com o título do livro do Norbert Lieth estampado nelas – “Conheça Jesus: Único, Incomparável, Maravilhoso”. Segundo Silvany, eles copiaram os dizeres do site da Chamada da Meia-Noite.

É minha sincera oração que este artigo possa gerar intercessores pelo mundo afora em favor desses nossos irmãos em Cristo lá da região do Seridó. Você que acabou de ler esta matéria, que tal gastar agora alguns minutos em oração, clamando ao único Deus que vê, ouve e responde nossas súplicas em prol daqueles irmãos seridoenses?

Quanto aos iludidos pela igreja da maioria, é também minha oração que se libertem rapidamente desse jugo, pois essa história de “Santa” e “Galo” “não é sabedoria que desce lá do alto; antes é terrena, animal e demoníaca” (Tiago 3.15). Ao nosso Deus toda a glória e honra, amém!

*Dr. Samuel Fernandes Magalhães Costa

Publicado na revista Chamada da Meia-Noite, julho de 2006.

25 abril 2008

"Meu inimigo sou eu"


Vez por outra sou atacado por um inimigo atroz: eu mesmo. Delimito meu mundo, e meus únicos vizinhos tornam-se meus desejos; sem reconhecer a ferocidade dos meus egoísmos, contento-me com minha insignificância. Nessas alucinações entrópicas, descubro a gênese de meu egocentrismo. Ele acontece quando, depois de lutar por ideais, cobrar atitudes das pessoas e propor um mundo mais justo, sou acometido pelo desejo de mandar tudo para o espaço e cuidar só do estreito quintal de minha vida.


Há pouco tempo deu-me uma vontade louca de desistir de tudo e me mudar para bem longe. Meio desencantado com minha geração, tive um ímpeto de me aposentar precocemente; talvez comprar uma casinha no sertão, diminuir minhas demandas financeiras e passar o resto dos meus dias lendo, pescando e curtindo a companhia sempre prazerosa de minha mulher.

Quando já me preparava para viver como uma cigarra selvagem, sem muita preocupação senão com minha própria felicidade, por acaso, li um pequeno trecho do poeta mexicano Amado Nervo (1870-1919). Suas palavras ressoaram dentro de mim com tanta força, que adiei minha aposentadoria por tempo indeterminado:

“Todo homem que te procura vai pedir-te alguma coisa; o rico aborrecido, a amenidade da tua conversa; o pobre, o teu dinheiro; o triste, um consolo; o débil, um estímulo; o que luta, uma ajuda moral. Todo homem que te busca, certamente há de pedir-te alguma coisa. E ousas impacientar-te!

“Infeliz! A lei oculta, que reparte misteriosamente as excelências, dignou-se outorgar-te o privilégio dos privilégios, o bem dos bens, a prerrogativa das prerrogativas: dar. Tu podes dar!

“Deverias cair de joelhos e dizer: Graças, meu Deus, porque posso dar! Nunca mais passará por meu semblante uma sombra de impaciência.”

Ao terminar a leitura, lembrei-me que o conceito de liberdade cristã não contempla qualquer egocentrismo. Anjos egoístas se transformaram em demônios; homens, em pecadores; e o mundo, num inferno. Assim, decidi resistir a essa tentação de abandonar minha vocação. Resolvi que asfixiarei essas inclinações que desafiam a minha fé e exorcizarei a vontade de parar – ela arrastará meu coração para o conforto dos tímidos que não herdarão o Reino de Deus.

André Comte-Sponville tratou da generosidade em seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes (Martins Fontes) e concluiu que “a generosidade, como todas as virtudes, é plural, tanto em seu conteúdo como nos nomes que lhe prestamos ou que servem para designá-la. Somada à coragem, pode ser heroísmo. Somada à justiça, faz-se eqüidade. Somada à compaixão, torna-se benevolência. Somada à misericórdia, vira indulgência. Mas seu mais belo nome é seu segredo, que todos conhecem: somada à doçura, ela se chama bondade”.

Devemos lembrar que a prioridade maior da fé não consiste em defender verdades, mas em aprender a amar. Jesus disse em João 13.35: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. Há algum tempo venho propondo que o principal curso dos seminários deveria ser “Agapeologia”, objetivando mostrar que ninguém pode se considerar um seguidor de Cristo se não dividir seu lanche, como fez um menino no milagre da multiplicação, e se não lavar os pés dos desafetos, como fez Jesus na noite em que Judas o traiu.

Reconheço a dificuldade de abrir mão da minha reputação para não deixar que melindres tirem minha alegria de servir, insistirei em me dar incondicionalmente àqueles que nem valorizam meus gestos de bondade. Reconheço que a trilha mais confortável conduz ao isolamento e que, muitas vezes, sinto facilidade em responsabilizar o próximo pelos meus infernos. Mas esse impulso de buscar isolar-me não nasce do Deus Trino que desde sempre convive em perfeita harmonia. Um projeto de vida egocêntrico é luciferiano.

Sabendo que o egoísmo nasce do diabo, rejeito seus ardis. Não sonegarei meus afetos, não vou ilhar-me, indiferente ao meu semelhante; não tentarei fugir para os confins do universo; e nem farei da minha cama um abismo de lamúrias. Atenderei ao apelo de Paulo: “E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem (...) sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor” (2 Ts 3.13; 2 Co 15.58).

Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim

30 março 2008

“Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer.”


Entendido à luz do contexto, este verso de Jo 6.44 não é tão problemático como pode parecer. O próximo versículo (45) diz, “Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus.” O todos não deve ser negligenciado. Como alguns têm dito, o Pai deseja atrair todos que desejam ser atraídos. No versículo 51 Jesus disse, “Eu sou o pão vivo... Se alguém comer deste pão, viverá para sempre.” Se alguém. E este último versículo conclui, “Minha carne, que eu darei pela vida do mundo.”


O versículo 44 é precedido pelo versículo 40, sendo idênticas as últimas palavras em cada um. O versículo 40 diz, “A vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna....” Assim, ver e crer precedem a afirmação da atração. Similarmente, o versículo 37, “Todo o que o Pai me dá virá a mim,” é precedido pelo versículo 35, “Aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede.”


Além do contexto imediato, é interessante verificar declarações significativas tanto no capítulo anterior quanto no seguinte. No capítulo 5.40 Jesus revelou o papel de responsabilidade que o homem representa, nas palavras, “E não quereis vir a mim para terdes vida.”


A evidência é que eles podiam vir, mas a falha estava justamente neles, “não quereis.” Então, no sétimo capítulo, o versículo 17, Jesus disse, “Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus,” o que mostra que depende da pessoa, “se alguém....”


Quanto ao ser atraído, em 6.44, precisamos apenas nos voltar para o capítulo 12 para ver seu desenvolvimento mais completo. Em 12.32 Jesus disse, “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim.”


Sobre este verso no capítulo 12, F. Godet disse: “Alguns limitam o todos aos eleitos; outros dão este sentido: homens de toda nação.... Mas atrair não necessariamente significa uma atração eficaz. Esta palavra pode se referir apenas à pregação da cruz por todo o mundo e a ação do Espírito Santo que a acompanha. Esta atração celestial não é irresistível.” (Commentary on the Gospel of John, Vol. II, p. 228)


Um pregador e professor batista, o Dr. A. J. Wall, disse: “A mesma palavra para ‘atrair,’ usada em Jo 6.44, é também usada em Jo 12.32. Ninguém pode vir sem ser atraído, e Jesus disse, ‘Todos atrairei a mim;’ por isso, todos os homens têm chances iguais de serem salvos. Ninguém se perderá porque não foi atraído a Cristo, mas muitos se perderão porque deixarão de crer e de render-se à atração de Cristo.” (The Truth About Election, p. 20)


Um outro pastor e escritor batista, Carey L. Daniel, disse sobre isto: “É nossa crença que Deus Pai atrai todos os homens que ouvem o evangelho pregado no poder do Espírito. Isto não é dizer, obviamente, que todos eles se renderão a este magnetismo. Há alguns que incorretamente interpretam a palavra ‘atrair’ como ‘arrastar’ ou ‘forçar,’ e então concluem que há certas pessoas que não poderiam ir para o inferno mesmo se quisessem e outras que não poderiam ir para o céu se quisessem.” (The Bible’s Seeming Contradictions, pp. 45-56)


Até D. L. Moody, após citar Jo 6.44, disse: “Bem, digo que Cristo está atraindo os homens. ‘Eu, quando for levantado... todos atrairei a mim.’ Ele está atraindo os homens, mas eles não virão. Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, e atraindo os homens a Ele. Esta atração está acontecendo agora, mas muitos corações estão lutando contra os esforços do Espírito. Deus está atraindo os homens para o céu, e o diabo está atraindo-os ao inferno.” (Select Sermons, p. 112)


Eruditos entendidos da língua original confirmam essas opiniões, como por exemplo, Dean Alford, que disse sobre Jo 6.44: “Que esta ‘atração’ não é a graça irresistível, é confessado até mesmo pelo próprio Agostinho, o grande defensor das doutrinas da graça. ‘Se um homem... vem indispostamente, ele não crê; se não crê, ele não vem. Pois não corremos a Cristo sobre nossos pés, mas pela fé; não com o movimento do corpo, mas como a livre vontade do coração.’... Os intérpretes gregos aceitam a opinião que eu adotei acima.... Esta atração está sendo exercida agora em todo o mundo – de acordo com a profecia do Senhor (12.32) e Seu comando (Mt 28.19-20).” (New Testament for English Readers, “John,” p. 521)


Similarmente, o bispo Wordsworth declarou: “Deus está pronto para atrair todos, pois Ele diz, Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus (Is 54.13).... Esta declaração não nega nosso livre-arbítrio, que é o erro dos maniqueus, mas demonstra nossa necessidade da graça divina.... Temos um Mestre que deseja dar Sua bênção a todos (versículo 45), e despeja Seu ensino celestial sobre todos. Deus atrai todos que desejam ser atraídos.” (The New Testament in the Original Greek, with Notes and Introductions, Gospels, p. 299)


O erudito Timothy Dwight, presidente de Yale e tradutor da obra de Godet sobre João, disse nesse volume em uma nota sobre este texto: “O pensamento geral desta passagem é similar àquele dos versos que imediatamente precedem – a não receptividade da alma insensível, e a vida que a alma sensível recebe através de Cristo.... Todo o desenvolvimento do pensamento neste discurso, que trata da vida interior da alma, parece mostrar claramente que, em versículos como 44 e 37, o assunto não é do propósito eletivo de Deus, mas da sensibilidade interna à influência divina. E o mesmo é verdadeiro de outras passagens similares neste Evangelho.” (Vol. II, p. 463)


Finalmente, G. Campbell Morgan disse, seguindo o versículo 44 pelo 45: “Vocês não podem vir a mim, disse Jesus, exceto se forem atraídos; mas isso não é desculpa para sua ignorância porque Deus está atraindo vocês; ‘Todos serão ensinados por Deus.’” (The Gospel According to John, p. 115)

*Samuel Fisk

06 março 2008

Precisamos Novamente de Homens de Deus

A igreja, neste momento, precisa de homens, o tipo certo de homens, homens ousados. Afirma-se que necessitamos de avivamento e de um novo movimento do Espírito; Deus, sabe que precisamos de ambas as coisas. Entretanto, Ele não haverá de avivar ratinhos. Não encherá coelhos com seu Espírito Santo.

A igreja suspira por homens que se consideram sacrificáveis na batalha da alma, homens que não podem ser amedrontados pelas ameaças de morte, porque já morreram para as seduções deste mundo. Tais homens estarão livres das compulsões que controlam os homens mais fracos. Não serão forçados a fazer as coisas pelo constrangimento das circunstâncias; sua única compulsão virá do íntimo e do alto.

Esse tipo de liberdade é necessária, se queremos ter novamente, em nossos púlpitos, pregadores cheios de poder, ao invés de mascotes. Esses homens livres servirão a Deus e à humanidade através de motivações elevadas demais, para serem compreendidas pelo grande número de religiosos que hoje entram e saem do santuário. Esse homens jamais tomarão decisões motivados pelo medo, não seguirão nenhum caminho impulsionados pelo desejo de agradar, não ministrarão por causa de condições financeiras, jamais realizarão qualquer ato religioso por simples costume; nem permitirão a si mesmos serem influenciados pelo amor à publicidade ou pelo desejo por boa reputação.

Muito do que a igreja faz em nossos dias, ela o faz porque tem medo de não fazê-lo. Associações de pastores atiram-se em projetos motivados apenas pelo temor de não se envolverem em tais projetos. Sempre que o seu reconhecimento motivado pelo medo (do tipo que observa o que os outros dizem e fazem) os conduz a crer no que o mundo espera que eles façam, eles o farão na próxima segunda-feira pela manhã, com toda a espécie de zelo ostentoso e demonstração de piedade. A influência constrangedora da opinião pública é quem chama esses profetas, não a voz de Jeová.

A verdadeira igreja jamais sondou as expectativas públicas, antes de se atirar em suas iniciativas. Seus líderes ouviram da parte de Deus e avançaram totalmente independentes do apoio popular ou da falta deste apoio. Eles sabiam que era vontade de Deus e o fizeram, e o povo os seguiu (às vezes em triunfo, porém mais freqüentemente com insultos e perseguição pública); e a recompensa de tais líderes foi a satisfação de estarem certos em um mundo errado.

Outra característica do verdadeiro homem de Deus tem sido o amor. O homem livre, que aprendeu a ouvir a voz de Deus e ousou obedecê-la, sentiu o mesmo fardo moral que partiu os corações dos profetas do Antigo Testamento, esmagou a alma de nosso Senhor Jesus Cristo e arrancou abundantes lágrimas dos apóstolos.

O homem livre jamais foi um tirano religioso, nem procurou exercer senhorio sobre a herança pertencente a Deus. O medo e a falta de segurança pessoal têm levado os homens a esmagarem os seus semelhantes debaixo de seus pés. Esse tipo de homem tinha algum interesse a proteger, alguma posição a assegurar; portanto, exigiu submissão de seus seguidores como garantia de sua própria segurança. Mas o homem livre, jamais; ele nada tem a proteger, nenhuma ambição a perseguir, nenhum inimigo a temer. Por esse motivo, ele é alguém completamente descuidado a respeito de seu prestígio entre os homens. Se o seguirem, muito bem; caso não o sigam, ele nada perde que seja querido ao seu coração; mas, quer ele seja aceito, quer seja rejeitado, continuará amando seu povo com sincera devoção. E somente a morte pode silenciar sua terna intercessão por eles.
Sim, se o cristianismo evangélico tem de permanecer vivo, precisa novamente de homens, o tipo certo de homens. Deverá repudiar os fracotes que não ousam falar o que precisa ser externado; precisa buscar, em oração e muita humildade, o surgimento de homens feitos da mesma qualidade dos profetas e dos antigos mártires. Deus ouvirá os clamores de seu povo, assim como Ele ouviu os clamores de Israel no Egito. Haverá de enviar libertação, ao enviar libertadores. É assim que Ele age entre os homens.

E, quando vierem os libertadores... serão homens de Deus, homens de coragem. Terão Deus ao seu lado, porque serão cuidadosos em permanecer ao lado dEle; serão cooperadores com Cristo e instrumentos nas mãos do Espírito Santo...
*A. W. Tozer

29 fevereiro 2008

Os Perigos da Segurança Carnal

Na cidade de Alma do Homem, vivia um homem cujo nome era Segurança Carnal. Este homem, apesar de toda a misericórdia concedida pelo Príncipe, colocou Alma do Homem em terrível servidão.

Quando Diabo tomou posse da cidade de Alma do Homem, ele trouxe consigo um grande número de seus descendentes. Entre estes se achava o Sr. Presunção. Diabo, percebendo que Presunção era muito ativo e ousado, enviou-o em muitas missões perigosíssimas. Presunção se mostrou bem-sucedido em suas realizações e agradou o seu senhor, mais do que muitos que o serviam. Reconhecendo que Presunção era conveniente aos seus propósitos, Diabo o tornou o segundo no comando, sob as ordens do grande lorde Vontade-Própria.

Naqueles dias, o lorde Vontade-Própria agradou-se de Presunção e de suas realizações, de modo que lhe deu sua filha, Srta. Não-Teme-Nada, como esposa. Ora, Não-Teme-Nada e Presunção tiveram um filho que chamaram Segurança Carnal. Houve muitos casamentos mistos em Alma do Homem, e, em alguns casos, dificilmente se podia determinar quem era natural da cidade e quem não o era. Segurança Carnal era parente do lorde Vontade-Própria, por parte de mãe, embora seu pai fosse descendente do Diabo, por natureza.


Segurança Carnal nasceu com os traços de seu pai e sua mãe. Ele era presunçoso, destemido e bastante ativo. De um modo ou de outro, qualquer idéia nova, filosofia estranha ou entretenimento incomum na cidade era instigado por ele. Nas contendas, ele rejeitava os que eram considerados fracos e sempre ficava do lado da facção mais forte.


Quando Shadai e Emanuel guerrearam contra Alma do Homem, Segurança Carnal estava na cidade. Ele se mostrou bastante ativo entre as pessoas, encorajando-as em sua rebelião e endurecendo-as em sua resistência contra as forças do Rei. Quando a cidade de Alma do Homem foi conquistada pelo Príncipe glorioso, Segurança Carnal viu Diabo ser expulso e forçado a deixar o castelo, com grande vergonha. Segurança Carnal percebeu que a cidade estava cheia dos capitães e das armas de guerra de Emanuel. Por essa razão, mostrando-se esperto, ele mudou de atitude. E, da mesma maneira como havia servido o Diabo, Segurança Carnal se comprometeu a apoiar o Príncipe.


Depois de obter algumas informações sobre os planos de Emanuel, Segurança Carnal aventurou-se na companhia dos homens da cidade e tentou conversar com eles. Segurança Carnal sabia que o poder e a força de Alma do Homem era grande e que seria agradável aos moradores se elogiasse o poder e a glória deles. Por conseguinte, ele começou a falar exageradamente sobre o poder e o vigor dos lugares seguros e das fortalezas de Alma do Homem, dizendo que a cidade era impenetrável. Segurança Carnal exaltou os capitães e suas armas, assegurando aos moradores que o Príncipe tornaria Alma do Homem feliz para sempre. Quando Segurança Carnal viu que algumas pessoas se deleitaram e foram conquistadas por seu discurso, ele estabeleceu como seu objetivo o percorrer todas as ruas e casas, a fim de convencer os moradores de sua segurança. Em breve, eles se tornaram tão carnalmente seguros como o era Segurança Carnal. Assim, motivados pela conversa, os moradores começaram a festejar e a se divertir.


O prefeito, Sr. Entendimento, o lorde Vontade-Própria e o Sr. Conhecimento também foram conquistados pelas palavras deste homem gentil e bajulador. Eles esqueceram que o seu Príncipe os advertira a serem cuidadosos e não se deixarem enganar por qualquer artifício diabólico. O Príncipe lhes dissera que a segurança agora florescente na cidade não se devia às suas fortalezas, e sim ao seu desejo de que Emanuel habitasse no castelo da cidade. A verdadeira doutrina de Emanuel dizia que Alma do Homem deveria ter o cuidado de não esquecer o amor do Príncipe e o amor de seu Pai pelos moradores. Eles também deveriam se comportar de um modo que os preservaria no amor dEle.

Tornarem-se enfatuados por causa de um habitante que era descendente do Diabo, especialmente alguém como Segurança Carnal, constituía um erro gravíssimo para eles. Deviam ter escutado, temido e amado o seu Príncipe. Deviam ter apedrejado até à morte este criador de desordens carnal e andado nos caminhos do seu Príncipe. A paz deles teria sido como um rio, se a sua justiça tivesse sido como as ondas do mar.

De sua residência, no castelo, Emanuel observou o que se passava na cidade. Compreendeu que, por meio da astúcia do Sr. Segurança Carnal, o coração dos homens de Alma do Homem havia se tornado frio em seu amor para com Ele. Com grande tristeza, ele se dirigiu ao Secretário de seu Pai: “Oh! Se meu povo tivesse me escutado e Alma do Homem houvesse andado em meus caminhos! Eu os teria alimentado com o mais fino trigo e sustentado com o mel que brota da rocha.”

Então, ele disse em seu coração: “Retornarei à corte de meu Pai, até que o povo de Alma do Homem considere e reconheça a sua ofensa.”

O coração de Emanuel estava ferido, porque eles não o visitavam mais em seu palácio real, como o faziam antes. Na realidade, os moradores de Alma do Homem nem mesmo percebiam que ele não estava mais vindo para bater na porta das casas deles. O Príncipe ainda preparava festas de amor e os convidava a participar, mas desprezavam os convites dele e não queriam mais se deleitar na sua companhia. Os habitantes de Alma do Homem não procuravam os conselhos do Príncipe, nem esperavam por tais conselhos. Em vez disso, se tornaram confiantes em si mesmos, concluindo que eram fortes e invencíveis. Acreditavam que Alma do Homem era segura e estava fora do alcance de qualquer inimigo.

Emanuel percebeu que, por causa da astúcia de Segurança Carnal, a cidade de Alma do Homem não dependia mais dele ou de seu Pai. Em vez disso, confiavam nas bênçãos que haviam recebido. A princípio, ele se entristeceu por causa da condição pecaminosa dos moradores. Por isso, tentou fazê-los compreender que o caminho que agora seguiam era perigoso. O Príncipe enviou seu Nobilíssimo Secretário, para proibi-los de continuar em seu caminho. Mas, nas duas ocasiões em que ele veio, encontrou os moradores jantando na casa de Segurança Carnal. O Secretário compreendeu que não estavam dispostos a ouvi-lo argumentando a respeito da felicidade deles. Depois, ele se retirou entristecido em seu coração. Quando ele narrou ao Príncipe a indiferença do povo, Emanuel também se sentiu ofendido e entristeceu-se. Assim, ele fez planos de retornar à corte de seu Pai.

Durante o restante do tempo que permaneceu em Alma do Homem, antes de sua partida, o Príncipe dedicou-se a si mesmo, mais do que o fizera anteriormente. Se procurava a companhia dos moradores, a conversa dele não era mais tão agradável como havia sido. Quando os homens da cidade vinham à casa do Príncipe, não o encontravam tão disponível como em tempos passados. Antes, ao ouvir os passos deles, o Príncipe se apressava a encontrá-los no meio do caminho e os envolvia em seus braços. Agora, porém, eles batiam uma ou duas vezes, e parecia que o Príncipe não os ouvia.

Emanuel continuou a agir desta maneira, esperando que as pessoas de Alma do Homem reconsiderassem suas atitudes e retornassem para ele. No entanto, elas não perceberam esta sua nova maneira de comportar-se para com elas, nem se comoveram com as lembranças dos antigos favores do Príncipe.

Por conseguinte, o Príncipe se retirou deles: primeiramente, em seu palácio; depois, nos portões da cidade; e, por último, saindo de Alma do Homem. Ele se ausentaria da cidade até que os moradores reconhecessem sua ofensa e buscassem sinceramente a face dele. O Sr. Paz-de-Deus também se retirou de sua posição e, até ao presente, não cumpriu mais seus deveres em Alma do Homem.

Por esse tempo, os moradores da cidade estavam tão endurecidos em seus caminhos e tão doutrinados por Segurança Carnal, que a partida do Príncipe não lhes comoveu o coração. Na verdade, os moradores de Alma do Homem nem se lembraram do Príncipe, depois que ele partiu, e sua ausência não teve qualquer importância para eles.


*John Bunyan *




18 fevereiro 2008

Apascentando ovelhas ou entretendo bodes?

Apascentando ovelhas ou entretendo bodes? Um mal está no declarado campo do Senhor, tão grosseiro em seu descaramento, que até o mais míope dificilmente deixaria de notá-lo durante os últimos anos. Ele se tem desenvolvido em um ritmo anormal, mesmo para o mal. Ele tem agido como fermento até que toda a massa levede. O demônio raramente fez algo tão engenhoso quanto sugerir à Igreja que parte de sua missão é prover entretenimento para as pessoas, com vistas a ganhá-las.


Da pregação em alta voz, como faziam os Puritanos, a Igreja gradualmente baixou o tom de seu testemunho, e então tolerou e desculpou as frivolidades da época. Em seguida ela as tolerou dentro de suas fronteiras. Agora as adotou sob o argumento de atingir as massas.

Meu primeiro argumento é que prover entretenimento para as pessoas não está dito em parte nenhuma das Escrituras como sendo uma função da Igreja. Se este é um trabalho Cristão, porque Cristo não falou dele? "Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura", (Marcos 16.15). Isto está suficientemente claro. Assim teria sido se Ele tivesse adicionado "e proporcionem divertimento para aqueles que não tem prazer no evangelho". Nenhuma destas palavras, contudo, são encontradas. Não parecem ter-lhe ocorrido.

Então novamente, "E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores... para a obra do ministério", (Efésios 4.11-12). Onde entram os animadores? O Espírito Santo silencia no que diz respeito a eles. Foram os profetas perseguidos porque divertiram o povo ou porque o rejeitaram? Em concerto musical não há lista de mártires.

Além disto, prover divertimento está em direto antagonismo com o ensino e a vida de Cristo e de todos os seus apóstolos. Qual foi a atitude da Igreja quanto ao mundo? "Vós sois o sal", (Mateus 5.13), não o doce açucarado - algo que o mundo irá cuspir e não engolir. Curta e severa foi a expressão: "deixa os mortos sepultar os seus mortos", (Mateus 8.22). Ele foi de uma tremenda seriedade.

Se Cristo introduzisse mais brilho e elementos agradáveis em Sua missão, ele teria sido mais popular quando O abandonaram por causa da natureza inquiridora de Seus ensinos. Eu não O ouvi dizer: "Corra atrás destas pessoas, Pedro, e diga-lhes que nós teremos um estilo diferente de culto amanhã, um pouco mais curto e atraente, com pouca pregação. Nós teremos uma noite agradável para as pessoas. Diga-lhes que certamente se agradarão. Seja rápido Pedro, nós devemos ganhar estas pessoas de qualquer forma". Jesus se compadeceu dos pecadores, suspirou e chorou por eles, mas nunca procurou entretê-los.

Em vão serão examinadas as Epístolas para se encontrar qualquer traço deste evangelho de entretenimento! A mensagem delas é: "Saia, afaste-se, mantenha-se afastado!" É patente a ausência de qualquer coisa que se aproxime de uma brincadeira. Eles tinham ilimitada confiança no evangelho e não empregavam outra arma.

Após Pedro e João terem sido presos por pregar o evangelho, a Igreja teve uma reunião de oração, mas eles não oraram: "Senhor conceda aos teus servos que através de um uso inteligente e perspicaz de inocente recreação possamos mostrar a estas pessoas quão felizes nós somos". Se não cessaram de pregar a Cristo, não tiveram tempo para arranjar entretenimentos. Dispersos pela perseguição, foram por todos lugares pregando o evangelho. Eles colocaram o mundo de cabeça para baixo, (Atos 17.6). Esta é a única diferença! Senhor, limpe a Igreja de toda podridão e refugo que o diabo lhe tem imposto, e traga-nos de volta aos métodos apostólicos.

Finalmente, a missão de entretenimento falha em realizar os fins desejados. Ela produz destruição entre os novos convertidos. Permita que os negligentes e escarnecedores, que agradecem a Deus pela Igreja os terem encontrado no meio do caminho, falem e testifiquem. Permita que os oprimidos que encontraram paz através de um concerto musical não silenciem! Permita que o bêbado para quem o entretenimento dramático foi um elo no processo de conversão, se levante! Ninguém irá responder. A missão de entretenimento não produz convertidos. A necessidade imediata para o ministério dos dias de hoje é crer na sabedoria combinada à verdadeira espiritualidade, uma brotando da outra como os frutos da raiz. A necessidade é de doutrina bíblica, de tal forma entendida e sentida, que coloque os homens em fogo.






*Charles Haddon Spurgeon