30 março 2008

“Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer.”


Entendido à luz do contexto, este verso de Jo 6.44 não é tão problemático como pode parecer. O próximo versículo (45) diz, “Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus.” O todos não deve ser negligenciado. Como alguns têm dito, o Pai deseja atrair todos que desejam ser atraídos. No versículo 51 Jesus disse, “Eu sou o pão vivo... Se alguém comer deste pão, viverá para sempre.” Se alguém. E este último versículo conclui, “Minha carne, que eu darei pela vida do mundo.”


O versículo 44 é precedido pelo versículo 40, sendo idênticas as últimas palavras em cada um. O versículo 40 diz, “A vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna....” Assim, ver e crer precedem a afirmação da atração. Similarmente, o versículo 37, “Todo o que o Pai me dá virá a mim,” é precedido pelo versículo 35, “Aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede.”


Além do contexto imediato, é interessante verificar declarações significativas tanto no capítulo anterior quanto no seguinte. No capítulo 5.40 Jesus revelou o papel de responsabilidade que o homem representa, nas palavras, “E não quereis vir a mim para terdes vida.”


A evidência é que eles podiam vir, mas a falha estava justamente neles, “não quereis.” Então, no sétimo capítulo, o versículo 17, Jesus disse, “Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus,” o que mostra que depende da pessoa, “se alguém....”


Quanto ao ser atraído, em 6.44, precisamos apenas nos voltar para o capítulo 12 para ver seu desenvolvimento mais completo. Em 12.32 Jesus disse, “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim.”


Sobre este verso no capítulo 12, F. Godet disse: “Alguns limitam o todos aos eleitos; outros dão este sentido: homens de toda nação.... Mas atrair não necessariamente significa uma atração eficaz. Esta palavra pode se referir apenas à pregação da cruz por todo o mundo e a ação do Espírito Santo que a acompanha. Esta atração celestial não é irresistível.” (Commentary on the Gospel of John, Vol. II, p. 228)


Um pregador e professor batista, o Dr. A. J. Wall, disse: “A mesma palavra para ‘atrair,’ usada em Jo 6.44, é também usada em Jo 12.32. Ninguém pode vir sem ser atraído, e Jesus disse, ‘Todos atrairei a mim;’ por isso, todos os homens têm chances iguais de serem salvos. Ninguém se perderá porque não foi atraído a Cristo, mas muitos se perderão porque deixarão de crer e de render-se à atração de Cristo.” (The Truth About Election, p. 20)


Um outro pastor e escritor batista, Carey L. Daniel, disse sobre isto: “É nossa crença que Deus Pai atrai todos os homens que ouvem o evangelho pregado no poder do Espírito. Isto não é dizer, obviamente, que todos eles se renderão a este magnetismo. Há alguns que incorretamente interpretam a palavra ‘atrair’ como ‘arrastar’ ou ‘forçar,’ e então concluem que há certas pessoas que não poderiam ir para o inferno mesmo se quisessem e outras que não poderiam ir para o céu se quisessem.” (The Bible’s Seeming Contradictions, pp. 45-56)


Até D. L. Moody, após citar Jo 6.44, disse: “Bem, digo que Cristo está atraindo os homens. ‘Eu, quando for levantado... todos atrairei a mim.’ Ele está atraindo os homens, mas eles não virão. Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, e atraindo os homens a Ele. Esta atração está acontecendo agora, mas muitos corações estão lutando contra os esforços do Espírito. Deus está atraindo os homens para o céu, e o diabo está atraindo-os ao inferno.” (Select Sermons, p. 112)


Eruditos entendidos da língua original confirmam essas opiniões, como por exemplo, Dean Alford, que disse sobre Jo 6.44: “Que esta ‘atração’ não é a graça irresistível, é confessado até mesmo pelo próprio Agostinho, o grande defensor das doutrinas da graça. ‘Se um homem... vem indispostamente, ele não crê; se não crê, ele não vem. Pois não corremos a Cristo sobre nossos pés, mas pela fé; não com o movimento do corpo, mas como a livre vontade do coração.’... Os intérpretes gregos aceitam a opinião que eu adotei acima.... Esta atração está sendo exercida agora em todo o mundo – de acordo com a profecia do Senhor (12.32) e Seu comando (Mt 28.19-20).” (New Testament for English Readers, “John,” p. 521)


Similarmente, o bispo Wordsworth declarou: “Deus está pronto para atrair todos, pois Ele diz, Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus (Is 54.13).... Esta declaração não nega nosso livre-arbítrio, que é o erro dos maniqueus, mas demonstra nossa necessidade da graça divina.... Temos um Mestre que deseja dar Sua bênção a todos (versículo 45), e despeja Seu ensino celestial sobre todos. Deus atrai todos que desejam ser atraídos.” (The New Testament in the Original Greek, with Notes and Introductions, Gospels, p. 299)


O erudito Timothy Dwight, presidente de Yale e tradutor da obra de Godet sobre João, disse nesse volume em uma nota sobre este texto: “O pensamento geral desta passagem é similar àquele dos versos que imediatamente precedem – a não receptividade da alma insensível, e a vida que a alma sensível recebe através de Cristo.... Todo o desenvolvimento do pensamento neste discurso, que trata da vida interior da alma, parece mostrar claramente que, em versículos como 44 e 37, o assunto não é do propósito eletivo de Deus, mas da sensibilidade interna à influência divina. E o mesmo é verdadeiro de outras passagens similares neste Evangelho.” (Vol. II, p. 463)


Finalmente, G. Campbell Morgan disse, seguindo o versículo 44 pelo 45: “Vocês não podem vir a mim, disse Jesus, exceto se forem atraídos; mas isso não é desculpa para sua ignorância porque Deus está atraindo vocês; ‘Todos serão ensinados por Deus.’” (The Gospel According to John, p. 115)

*Samuel Fisk

06 março 2008

Precisamos Novamente de Homens de Deus

A igreja, neste momento, precisa de homens, o tipo certo de homens, homens ousados. Afirma-se que necessitamos de avivamento e de um novo movimento do Espírito; Deus, sabe que precisamos de ambas as coisas. Entretanto, Ele não haverá de avivar ratinhos. Não encherá coelhos com seu Espírito Santo.

A igreja suspira por homens que se consideram sacrificáveis na batalha da alma, homens que não podem ser amedrontados pelas ameaças de morte, porque já morreram para as seduções deste mundo. Tais homens estarão livres das compulsões que controlam os homens mais fracos. Não serão forçados a fazer as coisas pelo constrangimento das circunstâncias; sua única compulsão virá do íntimo e do alto.

Esse tipo de liberdade é necessária, se queremos ter novamente, em nossos púlpitos, pregadores cheios de poder, ao invés de mascotes. Esses homens livres servirão a Deus e à humanidade através de motivações elevadas demais, para serem compreendidas pelo grande número de religiosos que hoje entram e saem do santuário. Esse homens jamais tomarão decisões motivados pelo medo, não seguirão nenhum caminho impulsionados pelo desejo de agradar, não ministrarão por causa de condições financeiras, jamais realizarão qualquer ato religioso por simples costume; nem permitirão a si mesmos serem influenciados pelo amor à publicidade ou pelo desejo por boa reputação.

Muito do que a igreja faz em nossos dias, ela o faz porque tem medo de não fazê-lo. Associações de pastores atiram-se em projetos motivados apenas pelo temor de não se envolverem em tais projetos. Sempre que o seu reconhecimento motivado pelo medo (do tipo que observa o que os outros dizem e fazem) os conduz a crer no que o mundo espera que eles façam, eles o farão na próxima segunda-feira pela manhã, com toda a espécie de zelo ostentoso e demonstração de piedade. A influência constrangedora da opinião pública é quem chama esses profetas, não a voz de Jeová.

A verdadeira igreja jamais sondou as expectativas públicas, antes de se atirar em suas iniciativas. Seus líderes ouviram da parte de Deus e avançaram totalmente independentes do apoio popular ou da falta deste apoio. Eles sabiam que era vontade de Deus e o fizeram, e o povo os seguiu (às vezes em triunfo, porém mais freqüentemente com insultos e perseguição pública); e a recompensa de tais líderes foi a satisfação de estarem certos em um mundo errado.

Outra característica do verdadeiro homem de Deus tem sido o amor. O homem livre, que aprendeu a ouvir a voz de Deus e ousou obedecê-la, sentiu o mesmo fardo moral que partiu os corações dos profetas do Antigo Testamento, esmagou a alma de nosso Senhor Jesus Cristo e arrancou abundantes lágrimas dos apóstolos.

O homem livre jamais foi um tirano religioso, nem procurou exercer senhorio sobre a herança pertencente a Deus. O medo e a falta de segurança pessoal têm levado os homens a esmagarem os seus semelhantes debaixo de seus pés. Esse tipo de homem tinha algum interesse a proteger, alguma posição a assegurar; portanto, exigiu submissão de seus seguidores como garantia de sua própria segurança. Mas o homem livre, jamais; ele nada tem a proteger, nenhuma ambição a perseguir, nenhum inimigo a temer. Por esse motivo, ele é alguém completamente descuidado a respeito de seu prestígio entre os homens. Se o seguirem, muito bem; caso não o sigam, ele nada perde que seja querido ao seu coração; mas, quer ele seja aceito, quer seja rejeitado, continuará amando seu povo com sincera devoção. E somente a morte pode silenciar sua terna intercessão por eles.
Sim, se o cristianismo evangélico tem de permanecer vivo, precisa novamente de homens, o tipo certo de homens. Deverá repudiar os fracotes que não ousam falar o que precisa ser externado; precisa buscar, em oração e muita humildade, o surgimento de homens feitos da mesma qualidade dos profetas e dos antigos mártires. Deus ouvirá os clamores de seu povo, assim como Ele ouviu os clamores de Israel no Egito. Haverá de enviar libertação, ao enviar libertadores. É assim que Ele age entre os homens.

E, quando vierem os libertadores... serão homens de Deus, homens de coragem. Terão Deus ao seu lado, porque serão cuidadosos em permanecer ao lado dEle; serão cooperadores com Cristo e instrumentos nas mãos do Espírito Santo...
*A. W. Tozer

29 fevereiro 2008

Os Perigos da Segurança Carnal

Na cidade de Alma do Homem, vivia um homem cujo nome era Segurança Carnal. Este homem, apesar de toda a misericórdia concedida pelo Príncipe, colocou Alma do Homem em terrível servidão.

Quando Diabo tomou posse da cidade de Alma do Homem, ele trouxe consigo um grande número de seus descendentes. Entre estes se achava o Sr. Presunção. Diabo, percebendo que Presunção era muito ativo e ousado, enviou-o em muitas missões perigosíssimas. Presunção se mostrou bem-sucedido em suas realizações e agradou o seu senhor, mais do que muitos que o serviam. Reconhecendo que Presunção era conveniente aos seus propósitos, Diabo o tornou o segundo no comando, sob as ordens do grande lorde Vontade-Própria.

Naqueles dias, o lorde Vontade-Própria agradou-se de Presunção e de suas realizações, de modo que lhe deu sua filha, Srta. Não-Teme-Nada, como esposa. Ora, Não-Teme-Nada e Presunção tiveram um filho que chamaram Segurança Carnal. Houve muitos casamentos mistos em Alma do Homem, e, em alguns casos, dificilmente se podia determinar quem era natural da cidade e quem não o era. Segurança Carnal era parente do lorde Vontade-Própria, por parte de mãe, embora seu pai fosse descendente do Diabo, por natureza.


Segurança Carnal nasceu com os traços de seu pai e sua mãe. Ele era presunçoso, destemido e bastante ativo. De um modo ou de outro, qualquer idéia nova, filosofia estranha ou entretenimento incomum na cidade era instigado por ele. Nas contendas, ele rejeitava os que eram considerados fracos e sempre ficava do lado da facção mais forte.


Quando Shadai e Emanuel guerrearam contra Alma do Homem, Segurança Carnal estava na cidade. Ele se mostrou bastante ativo entre as pessoas, encorajando-as em sua rebelião e endurecendo-as em sua resistência contra as forças do Rei. Quando a cidade de Alma do Homem foi conquistada pelo Príncipe glorioso, Segurança Carnal viu Diabo ser expulso e forçado a deixar o castelo, com grande vergonha. Segurança Carnal percebeu que a cidade estava cheia dos capitães e das armas de guerra de Emanuel. Por essa razão, mostrando-se esperto, ele mudou de atitude. E, da mesma maneira como havia servido o Diabo, Segurança Carnal se comprometeu a apoiar o Príncipe.


Depois de obter algumas informações sobre os planos de Emanuel, Segurança Carnal aventurou-se na companhia dos homens da cidade e tentou conversar com eles. Segurança Carnal sabia que o poder e a força de Alma do Homem era grande e que seria agradável aos moradores se elogiasse o poder e a glória deles. Por conseguinte, ele começou a falar exageradamente sobre o poder e o vigor dos lugares seguros e das fortalezas de Alma do Homem, dizendo que a cidade era impenetrável. Segurança Carnal exaltou os capitães e suas armas, assegurando aos moradores que o Príncipe tornaria Alma do Homem feliz para sempre. Quando Segurança Carnal viu que algumas pessoas se deleitaram e foram conquistadas por seu discurso, ele estabeleceu como seu objetivo o percorrer todas as ruas e casas, a fim de convencer os moradores de sua segurança. Em breve, eles se tornaram tão carnalmente seguros como o era Segurança Carnal. Assim, motivados pela conversa, os moradores começaram a festejar e a se divertir.


O prefeito, Sr. Entendimento, o lorde Vontade-Própria e o Sr. Conhecimento também foram conquistados pelas palavras deste homem gentil e bajulador. Eles esqueceram que o seu Príncipe os advertira a serem cuidadosos e não se deixarem enganar por qualquer artifício diabólico. O Príncipe lhes dissera que a segurança agora florescente na cidade não se devia às suas fortalezas, e sim ao seu desejo de que Emanuel habitasse no castelo da cidade. A verdadeira doutrina de Emanuel dizia que Alma do Homem deveria ter o cuidado de não esquecer o amor do Príncipe e o amor de seu Pai pelos moradores. Eles também deveriam se comportar de um modo que os preservaria no amor dEle.

Tornarem-se enfatuados por causa de um habitante que era descendente do Diabo, especialmente alguém como Segurança Carnal, constituía um erro gravíssimo para eles. Deviam ter escutado, temido e amado o seu Príncipe. Deviam ter apedrejado até à morte este criador de desordens carnal e andado nos caminhos do seu Príncipe. A paz deles teria sido como um rio, se a sua justiça tivesse sido como as ondas do mar.

De sua residência, no castelo, Emanuel observou o que se passava na cidade. Compreendeu que, por meio da astúcia do Sr. Segurança Carnal, o coração dos homens de Alma do Homem havia se tornado frio em seu amor para com Ele. Com grande tristeza, ele se dirigiu ao Secretário de seu Pai: “Oh! Se meu povo tivesse me escutado e Alma do Homem houvesse andado em meus caminhos! Eu os teria alimentado com o mais fino trigo e sustentado com o mel que brota da rocha.”

Então, ele disse em seu coração: “Retornarei à corte de meu Pai, até que o povo de Alma do Homem considere e reconheça a sua ofensa.”

O coração de Emanuel estava ferido, porque eles não o visitavam mais em seu palácio real, como o faziam antes. Na realidade, os moradores de Alma do Homem nem mesmo percebiam que ele não estava mais vindo para bater na porta das casas deles. O Príncipe ainda preparava festas de amor e os convidava a participar, mas desprezavam os convites dele e não queriam mais se deleitar na sua companhia. Os habitantes de Alma do Homem não procuravam os conselhos do Príncipe, nem esperavam por tais conselhos. Em vez disso, se tornaram confiantes em si mesmos, concluindo que eram fortes e invencíveis. Acreditavam que Alma do Homem era segura e estava fora do alcance de qualquer inimigo.

Emanuel percebeu que, por causa da astúcia de Segurança Carnal, a cidade de Alma do Homem não dependia mais dele ou de seu Pai. Em vez disso, confiavam nas bênçãos que haviam recebido. A princípio, ele se entristeceu por causa da condição pecaminosa dos moradores. Por isso, tentou fazê-los compreender que o caminho que agora seguiam era perigoso. O Príncipe enviou seu Nobilíssimo Secretário, para proibi-los de continuar em seu caminho. Mas, nas duas ocasiões em que ele veio, encontrou os moradores jantando na casa de Segurança Carnal. O Secretário compreendeu que não estavam dispostos a ouvi-lo argumentando a respeito da felicidade deles. Depois, ele se retirou entristecido em seu coração. Quando ele narrou ao Príncipe a indiferença do povo, Emanuel também se sentiu ofendido e entristeceu-se. Assim, ele fez planos de retornar à corte de seu Pai.

Durante o restante do tempo que permaneceu em Alma do Homem, antes de sua partida, o Príncipe dedicou-se a si mesmo, mais do que o fizera anteriormente. Se procurava a companhia dos moradores, a conversa dele não era mais tão agradável como havia sido. Quando os homens da cidade vinham à casa do Príncipe, não o encontravam tão disponível como em tempos passados. Antes, ao ouvir os passos deles, o Príncipe se apressava a encontrá-los no meio do caminho e os envolvia em seus braços. Agora, porém, eles batiam uma ou duas vezes, e parecia que o Príncipe não os ouvia.

Emanuel continuou a agir desta maneira, esperando que as pessoas de Alma do Homem reconsiderassem suas atitudes e retornassem para ele. No entanto, elas não perceberam esta sua nova maneira de comportar-se para com elas, nem se comoveram com as lembranças dos antigos favores do Príncipe.

Por conseguinte, o Príncipe se retirou deles: primeiramente, em seu palácio; depois, nos portões da cidade; e, por último, saindo de Alma do Homem. Ele se ausentaria da cidade até que os moradores reconhecessem sua ofensa e buscassem sinceramente a face dele. O Sr. Paz-de-Deus também se retirou de sua posição e, até ao presente, não cumpriu mais seus deveres em Alma do Homem.

Por esse tempo, os moradores da cidade estavam tão endurecidos em seus caminhos e tão doutrinados por Segurança Carnal, que a partida do Príncipe não lhes comoveu o coração. Na verdade, os moradores de Alma do Homem nem se lembraram do Príncipe, depois que ele partiu, e sua ausência não teve qualquer importância para eles.


*John Bunyan *




18 fevereiro 2008

Apascentando ovelhas ou entretendo bodes?

Apascentando ovelhas ou entretendo bodes? Um mal está no declarado campo do Senhor, tão grosseiro em seu descaramento, que até o mais míope dificilmente deixaria de notá-lo durante os últimos anos. Ele se tem desenvolvido em um ritmo anormal, mesmo para o mal. Ele tem agido como fermento até que toda a massa levede. O demônio raramente fez algo tão engenhoso quanto sugerir à Igreja que parte de sua missão é prover entretenimento para as pessoas, com vistas a ganhá-las.


Da pregação em alta voz, como faziam os Puritanos, a Igreja gradualmente baixou o tom de seu testemunho, e então tolerou e desculpou as frivolidades da época. Em seguida ela as tolerou dentro de suas fronteiras. Agora as adotou sob o argumento de atingir as massas.

Meu primeiro argumento é que prover entretenimento para as pessoas não está dito em parte nenhuma das Escrituras como sendo uma função da Igreja. Se este é um trabalho Cristão, porque Cristo não falou dele? "Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura", (Marcos 16.15). Isto está suficientemente claro. Assim teria sido se Ele tivesse adicionado "e proporcionem divertimento para aqueles que não tem prazer no evangelho". Nenhuma destas palavras, contudo, são encontradas. Não parecem ter-lhe ocorrido.

Então novamente, "E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores... para a obra do ministério", (Efésios 4.11-12). Onde entram os animadores? O Espírito Santo silencia no que diz respeito a eles. Foram os profetas perseguidos porque divertiram o povo ou porque o rejeitaram? Em concerto musical não há lista de mártires.

Além disto, prover divertimento está em direto antagonismo com o ensino e a vida de Cristo e de todos os seus apóstolos. Qual foi a atitude da Igreja quanto ao mundo? "Vós sois o sal", (Mateus 5.13), não o doce açucarado - algo que o mundo irá cuspir e não engolir. Curta e severa foi a expressão: "deixa os mortos sepultar os seus mortos", (Mateus 8.22). Ele foi de uma tremenda seriedade.

Se Cristo introduzisse mais brilho e elementos agradáveis em Sua missão, ele teria sido mais popular quando O abandonaram por causa da natureza inquiridora de Seus ensinos. Eu não O ouvi dizer: "Corra atrás destas pessoas, Pedro, e diga-lhes que nós teremos um estilo diferente de culto amanhã, um pouco mais curto e atraente, com pouca pregação. Nós teremos uma noite agradável para as pessoas. Diga-lhes que certamente se agradarão. Seja rápido Pedro, nós devemos ganhar estas pessoas de qualquer forma". Jesus se compadeceu dos pecadores, suspirou e chorou por eles, mas nunca procurou entretê-los.

Em vão serão examinadas as Epístolas para se encontrar qualquer traço deste evangelho de entretenimento! A mensagem delas é: "Saia, afaste-se, mantenha-se afastado!" É patente a ausência de qualquer coisa que se aproxime de uma brincadeira. Eles tinham ilimitada confiança no evangelho e não empregavam outra arma.

Após Pedro e João terem sido presos por pregar o evangelho, a Igreja teve uma reunião de oração, mas eles não oraram: "Senhor conceda aos teus servos que através de um uso inteligente e perspicaz de inocente recreação possamos mostrar a estas pessoas quão felizes nós somos". Se não cessaram de pregar a Cristo, não tiveram tempo para arranjar entretenimentos. Dispersos pela perseguição, foram por todos lugares pregando o evangelho. Eles colocaram o mundo de cabeça para baixo, (Atos 17.6). Esta é a única diferença! Senhor, limpe a Igreja de toda podridão e refugo que o diabo lhe tem imposto, e traga-nos de volta aos métodos apostólicos.

Finalmente, a missão de entretenimento falha em realizar os fins desejados. Ela produz destruição entre os novos convertidos. Permita que os negligentes e escarnecedores, que agradecem a Deus pela Igreja os terem encontrado no meio do caminho, falem e testifiquem. Permita que os oprimidos que encontraram paz através de um concerto musical não silenciem! Permita que o bêbado para quem o entretenimento dramático foi um elo no processo de conversão, se levante! Ninguém irá responder. A missão de entretenimento não produz convertidos. A necessidade imediata para o ministério dos dias de hoje é crer na sabedoria combinada à verdadeira espiritualidade, uma brotando da outra como os frutos da raiz. A necessidade é de doutrina bíblica, de tal forma entendida e sentida, que coloque os homens em fogo.






*Charles Haddon Spurgeon






08 fevereiro 2008

Entre a racionalidade e a graça

Nesta primeira década do século 21, o antagonismo entre o conhecimento secular e a religião parece coisa do passado. Hoje em dia, no mundo ocidental, quem professa fé em qualquer coisa não precisa confrontar sua crença com sistemas ideológicos – mas não foi assim no passado recente. Mesmo no século anterior, que trouxe à humanidade um progresso jamais visto em toda a civilização, a genuína fé evangélica sofreu ataques maciços de forças políticas como o comunismo e o nazismo, cujos idealizadores tinham a firme intenção de riscar do mapa o nome de Jesus Cristo. Há exatos cem anos, correntes teológicas hoje consideradas equivocadas colocavam a Igreja entre dois caminhos. De um lado, o liberalismo europeu fazia grandes estragos na espiritualidade proposta pela Bíblia Sagrada, ao sugerir que a simples vontade do homem em buscar o favor divino podia ser mais poderosa que a graça divina. Do lado de cá do Atlântico, a escola fundamentalista, proposta por teólogos norte-americanos, não teve melhor sorte ao propor uma interpretação literal, e não contextualizada, da Palavra de Deus.

Foi nesse contexto de extremismos que viveu e atuou um dos maiores teólogos da história da cristandade. O suíço Karl Barth foi um crítico contundente do saber teológico de seu tempo. Mas ele não se restringiu ao campo das idéias: teve destacada atuação no combate ao nazismo, causa em que se bateu ao lado do célebre pastor alemão Dietrich Bonhoeffer, mártir da luta contra o totalitarismo de Adolf Hitler. Para Barth, não havia antagonismo entre fé e razão, desde que os postulados básicos da fé, como a salvação pela graça e a autoridade das Escrituras, fossem observados. Agora, em 2008, a Igreja lembra os 40 anos da morte daquele que foi, para muitos, o principal teólogo do protestantismo contemporâneo.

Natural de Basiléia, uma próspera cidade suíça de fala alemã, Barth nasceu no dia 10 de maio de 1886 em um piedoso lar protestante. Filho e neto de pastores reformados, o rapaz decidiu manter a tradição religiosa da família e, em 1904, ingressou na Faculdade Teológica da Universidade de Berna, capital de seu país. O ambiente acadêmico da instituição, assim como da maioria das escolas teológicas européias do período, era dominado pela chamada teologia liberal, herança do iluminismo, cujos expoentes eram mestres do calibre de Schleiermacher, Ritschl e Troeltsch. Este pensamento religioso visava explicar o cristianismo de forma condizente com os conhecimentos da época – mesmo que determinados dogmas, muitos deles centrais para a fé, fossem solapados. Como intelectual, Barth cresceu em um período de grandes transformações. Movimentos filosóficos como o deísmo, o iluminismo e o positivismo reduziram tremendamente o papel da religião na sociedade. A Revolução Industrial inglesa encarregou-se de virar de cabeça para baixo as estruturas econômicas e sociais da época.

No âmbito científico, Charles Darwin assombrava a humanidade com sua polêmica teoria da evolução das espécies, atacando, frontalmente, o relato bíblico a respeito da criação do ser humano. Em meio a tantas conquistas e avanços, acreditava-se que o gênero humano estaria destinado a um futuro feliz e esplendoroso. Conceitos como o pecado e outras verdades bíblicas, outrora inquestionáveis, foram considerados verdadeiros entraves para o desenvolvimento deste “novo homem”.

“Cristo vivo” – Em 1909, Barth, de tendência claramente liberal, obtém sua graduação em teologia. Logo iniciou sua primeira experiência ministerial em Genebra, pastoreando uma comunidade reformada de língua alemã. Seus estudos seriam continuados em universidades européias de renome, como Tubingen e Marburg. Dois anos depois, ele assumiu o púlpito de uma igreja na pequena vila suíça de Safenwill. Neste período, filiou-se ao Movimento Socialista Cristão, assim como a seu braço político, o Partido Social Democrático. Sua atuação política foi intensa, incentivando a criação de sindicatos de trabalhadores e tomando o partido das mulheres de sua pequena igreja – operárias, na maioria. Em 1913, Barth casou-se com Nelly Hoffmann, mulher que seria sua companheira até o fim da vida.

Porém, a empatia de Karl Barth com o liberalismo teológico em voga nos ambientes teológicos europeus estava com os dias contados. Ansioso por um caminho alternativo, ele passou a dedicar muito tempo a um estudo aprofundado das Sagradas Escrituras. Debruçado sobre os escritos de líderes reformadores do século 16, como Lutero e Calvino, o teólogo da Basiléia chegou à conclusão de que era impossível ao homem chegar a Deus por seus próprios esforços. Como demonstração cabal de que a humanidade não estava destinada a um futuro de glória, em 1914 eclodiu o mais sangrento confronto já visto. Para o espanto de Barth, cerca de noventa e três professores de teologia alemães, quase todos liberais, assinaram um manifesto apoiando a opção germânica pela guerra como “uma forma de o Reino de Cristo ser implantado na terra”.


Logo após o termino da Primeira Grande Guerra, em 1919, em meio a uma sociedade em estado de choque, Barth publicaria aquele que se tornaria uma das principais referências teológicas do século. Seu Comentário aos Romanos jogou por terra a idéia da bondade inata do ser humano e do suposto valor da vontade própria na busca por Deus, conceitos então cristalizados no pensamento cristão. “Karl Barth foi fundamental ao mostrar que o papel do texto bíblico é o de revelar o Cristo vivo, aquele que é o único capaz de efetuar uma ligação entre Deus e os homens”, diz o pastor presbiteriano e professor Marcelo Smargiasse, mestre em ciências da religião e ligado à Escola Superior de Teologia do Instituto Mackenzie, em São Paulo. “Além disso, ele criticou as interpretações literais das Escrituras, mesmo sem contestar a autoridade histórica da Palavra.” Graças à sua obra, inúmeros outros teólogos, também insatisfeitos com a teologia liberal, mas que não estavam dispostos a seguir os fundamentalistas norte-americanos, reuniram-se e fundaram a revista Zwischen den Zeiten (“Entre os tempos”). Era o início da chamada neo-ortodoxia, ou simplesmente, “teologia dialética”.

Luta política – Agora reconhecido no mundo acadêmico, Barth abandona as atividades pastorais e inicia uma vitoriosa carreira como docente e teólogo. Em 1925, assume o cargo de professor na Universidade de Munster, Alemanha. Cinco anos depois, é convidado para compor o quadro de docentes da prestigiada Universidade de Bonn, ocupando a cadeira de teologia sistemática. Dali, presenciou o nascimento e o crescimento do pesadelo nazista. Em 1933, Adolf Hitler torna-se o chanceler da Alemanha e lança as bases do Terceiro Reich, o império que, segundo a propaganda oficial, deveria durar mil anos. Mais uma vez, parte expressiva da Igreja apoiou o movimento que pregava a supremacia ariana e o expansionismo, mesmo às custas do massacre de outros povos.

Consciente do paganismo e do ocultismo que dava base à ideologia nazista, Barth levanta sua voz contra o partido dos “cristãos alemães”, grupo de pastores da Igreja Evangélica da Alemanha, maior denominação protestante do país, que tinham como alvo a criação de uma igreja cristã “compatível com os ideais germânicos” – entre eles, a destruição do cristianismo histórico, a retirada da Bíblia de tudo aquilo que fosse considerado de inspiração excessivamente judaica e a construção da figura de um Jesus conquistador e ariano. Em inúmeros sermões e impressos – como a Declaração de Barmen, em co-autoria com Bonhoeffer e Martin Niemoller –, o teólogo suíço enfatizava que apenas Cristo é o Senhor absoluto da Igreja, não cabendo tal privilégio a nenhum Estado, partido ou líder. Nascia a Igreja Confessante, grupo evangélico de resistência a Hitler.

“Essa luta de Barth contra o autoritarismo político e o controle ideológico da sociedade inteira é importante até hoje, no contexto da globalização”, sustenta o teólogo e filósofo Derval Dasilio, ministro da Igreja Presbiteriana Unida. Tal postura não ficaria impune. Em 1935, Barth foi oficialmente expulso da Alemanha, tendo seus diplomas anulados e seu visto cassado em solo germânico. De volta a Suíça, Barth continuou seu trabalho de oposição ao nazismo. Usando seu prestigio, denunciou ao mundo a criminosa situação imposta pelo Terceiro Reich a minorias como judeus, ciganos e deficientes físicos. Mantendo este vivo interesse pela defesa dos direitos humanos, apoiou ainda os republicanos espanhóis contra o regime fascista imposto pelo general Franco.

Personalidade sem estereótipos, a luta política levou-o ainda a protestar contra a Guerra Fria e o totalitarismo soviético da segunda metade do século. Embora socialista, ele não podia admitir um regime de coação às liberdades individuais – sobretudo a religiosa. Ao mesmo tempo, recusava-se a participar de uma cruzada anticomunista, alegando que o ateísmo de Moscou era fruto da filosofia ocidental, calcada em enormes injustiças sociais que condenavam milhões de pessoas a uma vida de miséria.

Nos últimos anos de sua vida, Karl Barth legou à posteridade mais alguns marcos de seu brilhantismo teológico. Morto em 1968, ele deixou inacabada sua Dogmática eclesiástica, coleção de treze tomos e quatro volumes que é considerada por muitos estudiosos como a maior coleção dogmática do protestantismo, atrás apenas das Institutas de Calvino. “Se fosse possível traçar uma espécie de linha sucessória dos teólogos cristãos, eu a faria desta forma: Paulo, Agostinho, Lutero, Calvino e Barth”, enumera Carlos Alberto Fernandes Chaves, pastor anglicano e mestre em ciências da religião pelo Seminário Bíblico Latino-Americano, em San José (Costa Rica). “Seu grande legado é a teologia dialética e seu apego à Palavra de Deus”, acrescenta o pastor e professor Éber Silveira Lima, professor do Seminário Teológico de São Paulo e doutor em história pela Universidade do Estado de São Paulo. “Creio que é preciso continuar a ler Barth para que percebamos a possibilidade de um cristianismo fiel, bíblico e relevante”, encerra.
*André Tadeu de Oliveira

04 fevereiro 2008

Silêncio forçado!

Se a Constituição Federal, em seu artigo 5º Insisos VI e VIII, garante a todo cidadão brasileiro a liberdade de consciência e o livre exercício dos cultos religiosos, ao que parece a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), empresa responsável pelo transporte ferroviário em São Paulo e os evangélicos pregadores que, diariamente, usam sua malha ferroviária, parecem que não estão falando a mesma língua ou respeitando o mesmo código. Nos últimos meses, a exemplo do que já acontece com os vendedores ambulantes, a empresa também tem feito uma marcação cerrada contra os pregadores, que se julgam perseguidos e humilhados ao serem retirados das composições. Com isso, uma das mais conhecidas e tradicionais formas de evangelização, pelo menos na capital paulista, parece estar com os dias contados.


O estopim de toda essa discussão aconteceu na estação Engenheiro Goulart, Zona Leste da cidade, onde três usuários – José Airton da Silva Santos, Agostinho Ferreira da Silva e Hilda Macedo de Oliveira, todos citados na ocorrência interna Nº 10904/2007 emitida pela empresa – foram obrigados a desembarcar, por estarem fazendo pregação religiosa. Em seu estatuto (NG 005), a CPTM esclarece que qualquer atividade que cause transtorno aos usuários, nas quais está incluída a pregação religiosa, é proibida. E argumenta ainda que tal decisão é fundamentada no Decreto Federal Nº 1832 de 04/03/96, que aprovou o Regulamento dos Transportes Ferroviários no país. “Antes da adoção de medidas regulamentares à pregação religiosa no interior dos trens e estações, a CPTM visitou várias igrejas evangélicas para informar sobre essa legislação e esclarecer dúvidas”, garante, ainda, sua assessoria de imprensa.


O evangelista Adeildo Francisco de Lima trabalha como segurança numa loja de artigos evangélicos em São Paulo e, durante o trajeto de casa para o emprego e vice-versa, ele aproveita o tempo para suas pregações, consciente de que está salvando muitas almas. Ele afirma que, por diversas vezes, foi vítima de represália por parte dos fiscais das estações: “Já levei muita pancada, cusparada, e tive minha Bíblia rasgada”, desabafa. E mesmo que não agrade à maioria dos passageiros com seus sermões e discursos inflamados, ele persiste com seu trabalho que considera o cumprimento de uma determinação de Deus. “Os pagodeiros se reúnem na Luz e ninguém fala nada. Tocar pagode, jogar truco, dizer palavrão, tudo isso pode, agora é só começar a falar de Deus que alguém já manda calar a boca”, compara. No último dia 2 de dezembro, domingo, a CPTM destinou os dois últimos carros da linha Jurubatuba/Osasco para um show de pagode, com diversos músicos, compositores e cantores, em comemoração ao Dia Nacional do Samba, com o objetivo difundir o gênero.


“Houve vezes em que, simplesmente por estar falando sobre a Bíblia no vagão, passei o dia todo em um cômodo minúsculo, com três ou quatro policiais que me intimidavam com um interrogatório digno de ser aplicado a um criminoso”, relembra Marcelo Silva, pastor responsável pela Cruzada Evangelística Interdenominacional nos Trens das Boas Novas, movimento responsável pela divulgação do Evangelho nos vagões da CPTM. “Procuramos não ser inconvenientes e nos conduzimos de forma organizada e equilibrada”, garante.


Diálogo – O líder do PSDB na Câmara dos Vereadores de São Paulo, Carlos Bezerra Júnior, reuniu-se em novembro com representantes da presidência da CPTM para discutir o problema. “Impedir iniciativas como essa é antidemocrático; não se pode cercear nem tratar com brutalidade cidadãos que estão professando sua fé de forma pacífica”, ressalta o vereador que, imediatamente após a reunião, encaminhou documento à CPTM solicitando providências no sentido de garantir que os evangélicos não sejam, novamente, vítimas de represálias. E uma das alternativas sugeridas seria a formação de um grupo de líderes e representantes cristãos para facilitar o diálogo com a empresa. “A ação do vereador foi muito importante; nunca fomos recebidos com tanta atenção. Essa é uma necessidade antiga e, finalmente, agora parece estar sendo atendida”, opina Denise Pereira, missionária da Cruzada.


Apesar da proibição dos cultos, os evangélicos expulsos dos trens da CPTM contam com a solidariedade de diversas pessoas, crentes ou não, como o pastor Renê que, num e-mail questiona: “Tudo isso está acontecendo na Zona Leste de São Paulo, mas será que o Brasil está se tornando uma China comunista com tanta perseguição?”.


Há mais de dois anos, a evangélica Maria de Lurdes de Oliveira, 38 anos, faz uma verdadeira maratona para ir, diariamente, de sua casa no bairro de Itaim Paulista a Pinheiros, onde trabalha como empregada doméstica. E nesse período, ela afirma ter presenciado muitas ocorrências no interior dos trens, desde pequenos furtos até discussões violentas. “Já vi também os guardas tomarem mercadoria dos ambulantes e bíblias dos evangélicos”, comenta. Para mim, fazer qualquer coisa que vá contra a Palavra de Deus é pecado, além de imoral”, acrescenta.


Mas se nem mesmo Jesus agradou a todos, não seriam os pregadores que iriam conquistar essa proeza. “Conheço muitos evangélicos que respeito, como os meus vizinhos. Mas, todos os dias, voltando do trabalho, assisto à pregação de uma mulher no trem. Ela só fica gritando: ‘Louva a Deus Cristo’ e ‘Louva a Deus Senhor’. Acho uma falta de respeito com os passageiros que não estão dispostos a ouvir. Se eu quisesse um sermão evangélico, iria para uma igreja. Essas pessoas acreditam, piamente, que se você não vai ao templo é porque tem o coração fechado”, comenta um dos passageiros, que pediu para que seu nome não fosse revelado.


Quadro: Vagão dos evangélicos


Uma situação que tem se tornado comum nos trens das grandes cidades, não somente brasileiras como também no exterior, é o agrupamento de pessoas com as mesmas afinidades ou características num mesmo local. Até mesmo a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) já estuda a possibilidade de destinar um dos vagões somente para gestantes. Entretanto, na maioria das vezes, o agrupamento corre por conta dos próprios usuários sem qualquer interferência das empresas. Na CPTM não é diferente, e uma das composições da linha Brás/Calmon Viana, que está entre as mais movimentas da Zona Leste, tornou-se uma espécie de ponto de encontro de evangélicos, e os cultos são comuns a qualquer hora do dia. “Não é sempre que dá certo, mas às vezes eu entro no vagão dos evangélicos. É como se estivesse orando na minha igreja, e até a viagem passa mais depressa”, comenta Maria de Lurdes. Face ao imbróglio causado entre os pregadores e a CPTM nos últimos meses, não é somente um dos mais tradicionais métodos de evangelização que corre o risco de acabar; a viagem do chamado “vagão dos evangélicos” também pode também estar chegando ao fim. Mas, para deixar os evangélicos um pouco mais tranqüilos, a CPTM argumenta: “A empresa não pode cercear o direito de ir e vir das pessoas, portanto não proíbe e nem proibirá que os evangélicos se reúnam para viajarem juntos. Qualquer cidadão tem o direito de viajar no vagão que desejar, em grupos ou sozinhas”.

José Donizetti Morbidelli

29 janeiro 2008

Profetas do óbvio

A frase passou pelo dramaturgo Nelson Rodrigues e chegou, agora, aos desafios do nosso cotidiano, nesses tempos de pouca tropa (a seara é grande, os trabalhadores são poucos) e reduzida elite – tem gente demais confundindo pregar com berrar, desconhecendo, assim, a força da suavidade em levar a Palavra de salvação como bálsamo de primeiríssima qualidade. Um escritor adaptou-a para deixá-la assim: “Só os profetas enxergam o óbvio”.


O dito exige reflexão. É instigante como Nietzsche, o filósofo alemão, a nos dizer que os amantes amam mais o amor do que a pessoa amada. Fernando Pessoa, o poeta, sabia (e dizia) que todas as cartas de amor são ridículas, o que, refletido, pode nos levar a concluir que aquele que ama não tem vergonha de ser considerado ridículo.


Ao óbvio, pois, sem temor ou vergonha. Num conto dos mais críticos, nosso Machado de Assis deu à obra o provocante título de a Igreja do Diabo, uma alegoria à decisão do chefão das forças do mal em institucionalizar uma igreja própria, com prédicas, bulas e novenas, reforçando o materialismo e abolindo sentimentos de culpa. Numa nova parábola, promoveu a metamorfose do vício em virtude. Ser soberbo, venal, adepto da luxúria e da preguiça passam a ser comportamentos tidos como nobres.


Machado descreve que a nova doutrina fascina a muita gente, mas o próprio símbolo das trevas fica surpreso ao descobrir, chocado, que muitos de seus novos seguidores praticavam, escondidos, as antigas virtudes cristãs. Tal cenário, como analisa a escritora Thaís Nicoleti de Camargo, “vale uma reflexão sobre a natureza humana, atualíssima nestes tempos em que a ética está em debate”.


Profeta, como sabemos, nunca foi adivinho. É, etimologicamente, um arauto. Foi, e pode ser, quem – sempre falando em nome de Deus – analisa conjunturas e comportamentos e lança sementes da verdade. Deixa claros padrões de justiça. Trata-se de alguém que mantém uma relação íntima, profunda, com o Altíssimo. É servo de Deus, mensageiro do Senhor.


Mas, porque o “óbvio”? Porque é impossível viver sem Deus. Óbvio. E caminhos aparentemente largos conduzem à perdição. Óbvio. Porque veredas estreitas podem levar à salvação. Óbvio. Porque o salário do pecado é a morte. Óbvio. Porque o Senhor é nossa verdade, nossa vida. Óbvio. Porque hoje se cultua o corpo, mas o perigo de se criar mofo nas almas é esquecido. Óbvio. E existem corpos sarados, na acepção do termo? Sim, óbvio. E o cultivo da alma, o regozijo, a alegria, o desfrutar pleno, é perseguido com o mesmo afinco, a mesma determinação? Contraponto óbvio.


Camus, o escritor francês, falava de um óbvio e advertia: corremos o risco de ser atacados e mortos se tivermos a ousadia de dizer publicamente que dois mais dois são quatro. Mas isso não é óbvio? Claro – mas não querem mais nem ouvir o óbvio. Sejamos, pois, mensageiros de Deus e profetas do óbvio.

Percival de Souza é escritor, jornalista e membro do Conselho Diretor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista