18 fevereiro 2008

Apascentando ovelhas ou entretendo bodes?

Apascentando ovelhas ou entretendo bodes? Um mal está no declarado campo do Senhor, tão grosseiro em seu descaramento, que até o mais míope dificilmente deixaria de notá-lo durante os últimos anos. Ele se tem desenvolvido em um ritmo anormal, mesmo para o mal. Ele tem agido como fermento até que toda a massa levede. O demônio raramente fez algo tão engenhoso quanto sugerir à Igreja que parte de sua missão é prover entretenimento para as pessoas, com vistas a ganhá-las.


Da pregação em alta voz, como faziam os Puritanos, a Igreja gradualmente baixou o tom de seu testemunho, e então tolerou e desculpou as frivolidades da época. Em seguida ela as tolerou dentro de suas fronteiras. Agora as adotou sob o argumento de atingir as massas.

Meu primeiro argumento é que prover entretenimento para as pessoas não está dito em parte nenhuma das Escrituras como sendo uma função da Igreja. Se este é um trabalho Cristão, porque Cristo não falou dele? "Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura", (Marcos 16.15). Isto está suficientemente claro. Assim teria sido se Ele tivesse adicionado "e proporcionem divertimento para aqueles que não tem prazer no evangelho". Nenhuma destas palavras, contudo, são encontradas. Não parecem ter-lhe ocorrido.

Então novamente, "E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores... para a obra do ministério", (Efésios 4.11-12). Onde entram os animadores? O Espírito Santo silencia no que diz respeito a eles. Foram os profetas perseguidos porque divertiram o povo ou porque o rejeitaram? Em concerto musical não há lista de mártires.

Além disto, prover divertimento está em direto antagonismo com o ensino e a vida de Cristo e de todos os seus apóstolos. Qual foi a atitude da Igreja quanto ao mundo? "Vós sois o sal", (Mateus 5.13), não o doce açucarado - algo que o mundo irá cuspir e não engolir. Curta e severa foi a expressão: "deixa os mortos sepultar os seus mortos", (Mateus 8.22). Ele foi de uma tremenda seriedade.

Se Cristo introduzisse mais brilho e elementos agradáveis em Sua missão, ele teria sido mais popular quando O abandonaram por causa da natureza inquiridora de Seus ensinos. Eu não O ouvi dizer: "Corra atrás destas pessoas, Pedro, e diga-lhes que nós teremos um estilo diferente de culto amanhã, um pouco mais curto e atraente, com pouca pregação. Nós teremos uma noite agradável para as pessoas. Diga-lhes que certamente se agradarão. Seja rápido Pedro, nós devemos ganhar estas pessoas de qualquer forma". Jesus se compadeceu dos pecadores, suspirou e chorou por eles, mas nunca procurou entretê-los.

Em vão serão examinadas as Epístolas para se encontrar qualquer traço deste evangelho de entretenimento! A mensagem delas é: "Saia, afaste-se, mantenha-se afastado!" É patente a ausência de qualquer coisa que se aproxime de uma brincadeira. Eles tinham ilimitada confiança no evangelho e não empregavam outra arma.

Após Pedro e João terem sido presos por pregar o evangelho, a Igreja teve uma reunião de oração, mas eles não oraram: "Senhor conceda aos teus servos que através de um uso inteligente e perspicaz de inocente recreação possamos mostrar a estas pessoas quão felizes nós somos". Se não cessaram de pregar a Cristo, não tiveram tempo para arranjar entretenimentos. Dispersos pela perseguição, foram por todos lugares pregando o evangelho. Eles colocaram o mundo de cabeça para baixo, (Atos 17.6). Esta é a única diferença! Senhor, limpe a Igreja de toda podridão e refugo que o diabo lhe tem imposto, e traga-nos de volta aos métodos apostólicos.

Finalmente, a missão de entretenimento falha em realizar os fins desejados. Ela produz destruição entre os novos convertidos. Permita que os negligentes e escarnecedores, que agradecem a Deus pela Igreja os terem encontrado no meio do caminho, falem e testifiquem. Permita que os oprimidos que encontraram paz através de um concerto musical não silenciem! Permita que o bêbado para quem o entretenimento dramático foi um elo no processo de conversão, se levante! Ninguém irá responder. A missão de entretenimento não produz convertidos. A necessidade imediata para o ministério dos dias de hoje é crer na sabedoria combinada à verdadeira espiritualidade, uma brotando da outra como os frutos da raiz. A necessidade é de doutrina bíblica, de tal forma entendida e sentida, que coloque os homens em fogo.






*Charles Haddon Spurgeon






08 fevereiro 2008

Entre a racionalidade e a graça

Nesta primeira década do século 21, o antagonismo entre o conhecimento secular e a religião parece coisa do passado. Hoje em dia, no mundo ocidental, quem professa fé em qualquer coisa não precisa confrontar sua crença com sistemas ideológicos – mas não foi assim no passado recente. Mesmo no século anterior, que trouxe à humanidade um progresso jamais visto em toda a civilização, a genuína fé evangélica sofreu ataques maciços de forças políticas como o comunismo e o nazismo, cujos idealizadores tinham a firme intenção de riscar do mapa o nome de Jesus Cristo. Há exatos cem anos, correntes teológicas hoje consideradas equivocadas colocavam a Igreja entre dois caminhos. De um lado, o liberalismo europeu fazia grandes estragos na espiritualidade proposta pela Bíblia Sagrada, ao sugerir que a simples vontade do homem em buscar o favor divino podia ser mais poderosa que a graça divina. Do lado de cá do Atlântico, a escola fundamentalista, proposta por teólogos norte-americanos, não teve melhor sorte ao propor uma interpretação literal, e não contextualizada, da Palavra de Deus.

Foi nesse contexto de extremismos que viveu e atuou um dos maiores teólogos da história da cristandade. O suíço Karl Barth foi um crítico contundente do saber teológico de seu tempo. Mas ele não se restringiu ao campo das idéias: teve destacada atuação no combate ao nazismo, causa em que se bateu ao lado do célebre pastor alemão Dietrich Bonhoeffer, mártir da luta contra o totalitarismo de Adolf Hitler. Para Barth, não havia antagonismo entre fé e razão, desde que os postulados básicos da fé, como a salvação pela graça e a autoridade das Escrituras, fossem observados. Agora, em 2008, a Igreja lembra os 40 anos da morte daquele que foi, para muitos, o principal teólogo do protestantismo contemporâneo.

Natural de Basiléia, uma próspera cidade suíça de fala alemã, Barth nasceu no dia 10 de maio de 1886 em um piedoso lar protestante. Filho e neto de pastores reformados, o rapaz decidiu manter a tradição religiosa da família e, em 1904, ingressou na Faculdade Teológica da Universidade de Berna, capital de seu país. O ambiente acadêmico da instituição, assim como da maioria das escolas teológicas européias do período, era dominado pela chamada teologia liberal, herança do iluminismo, cujos expoentes eram mestres do calibre de Schleiermacher, Ritschl e Troeltsch. Este pensamento religioso visava explicar o cristianismo de forma condizente com os conhecimentos da época – mesmo que determinados dogmas, muitos deles centrais para a fé, fossem solapados. Como intelectual, Barth cresceu em um período de grandes transformações. Movimentos filosóficos como o deísmo, o iluminismo e o positivismo reduziram tremendamente o papel da religião na sociedade. A Revolução Industrial inglesa encarregou-se de virar de cabeça para baixo as estruturas econômicas e sociais da época.

No âmbito científico, Charles Darwin assombrava a humanidade com sua polêmica teoria da evolução das espécies, atacando, frontalmente, o relato bíblico a respeito da criação do ser humano. Em meio a tantas conquistas e avanços, acreditava-se que o gênero humano estaria destinado a um futuro feliz e esplendoroso. Conceitos como o pecado e outras verdades bíblicas, outrora inquestionáveis, foram considerados verdadeiros entraves para o desenvolvimento deste “novo homem”.

“Cristo vivo” – Em 1909, Barth, de tendência claramente liberal, obtém sua graduação em teologia. Logo iniciou sua primeira experiência ministerial em Genebra, pastoreando uma comunidade reformada de língua alemã. Seus estudos seriam continuados em universidades européias de renome, como Tubingen e Marburg. Dois anos depois, ele assumiu o púlpito de uma igreja na pequena vila suíça de Safenwill. Neste período, filiou-se ao Movimento Socialista Cristão, assim como a seu braço político, o Partido Social Democrático. Sua atuação política foi intensa, incentivando a criação de sindicatos de trabalhadores e tomando o partido das mulheres de sua pequena igreja – operárias, na maioria. Em 1913, Barth casou-se com Nelly Hoffmann, mulher que seria sua companheira até o fim da vida.

Porém, a empatia de Karl Barth com o liberalismo teológico em voga nos ambientes teológicos europeus estava com os dias contados. Ansioso por um caminho alternativo, ele passou a dedicar muito tempo a um estudo aprofundado das Sagradas Escrituras. Debruçado sobre os escritos de líderes reformadores do século 16, como Lutero e Calvino, o teólogo da Basiléia chegou à conclusão de que era impossível ao homem chegar a Deus por seus próprios esforços. Como demonstração cabal de que a humanidade não estava destinada a um futuro de glória, em 1914 eclodiu o mais sangrento confronto já visto. Para o espanto de Barth, cerca de noventa e três professores de teologia alemães, quase todos liberais, assinaram um manifesto apoiando a opção germânica pela guerra como “uma forma de o Reino de Cristo ser implantado na terra”.


Logo após o termino da Primeira Grande Guerra, em 1919, em meio a uma sociedade em estado de choque, Barth publicaria aquele que se tornaria uma das principais referências teológicas do século. Seu Comentário aos Romanos jogou por terra a idéia da bondade inata do ser humano e do suposto valor da vontade própria na busca por Deus, conceitos então cristalizados no pensamento cristão. “Karl Barth foi fundamental ao mostrar que o papel do texto bíblico é o de revelar o Cristo vivo, aquele que é o único capaz de efetuar uma ligação entre Deus e os homens”, diz o pastor presbiteriano e professor Marcelo Smargiasse, mestre em ciências da religião e ligado à Escola Superior de Teologia do Instituto Mackenzie, em São Paulo. “Além disso, ele criticou as interpretações literais das Escrituras, mesmo sem contestar a autoridade histórica da Palavra.” Graças à sua obra, inúmeros outros teólogos, também insatisfeitos com a teologia liberal, mas que não estavam dispostos a seguir os fundamentalistas norte-americanos, reuniram-se e fundaram a revista Zwischen den Zeiten (“Entre os tempos”). Era o início da chamada neo-ortodoxia, ou simplesmente, “teologia dialética”.

Luta política – Agora reconhecido no mundo acadêmico, Barth abandona as atividades pastorais e inicia uma vitoriosa carreira como docente e teólogo. Em 1925, assume o cargo de professor na Universidade de Munster, Alemanha. Cinco anos depois, é convidado para compor o quadro de docentes da prestigiada Universidade de Bonn, ocupando a cadeira de teologia sistemática. Dali, presenciou o nascimento e o crescimento do pesadelo nazista. Em 1933, Adolf Hitler torna-se o chanceler da Alemanha e lança as bases do Terceiro Reich, o império que, segundo a propaganda oficial, deveria durar mil anos. Mais uma vez, parte expressiva da Igreja apoiou o movimento que pregava a supremacia ariana e o expansionismo, mesmo às custas do massacre de outros povos.

Consciente do paganismo e do ocultismo que dava base à ideologia nazista, Barth levanta sua voz contra o partido dos “cristãos alemães”, grupo de pastores da Igreja Evangélica da Alemanha, maior denominação protestante do país, que tinham como alvo a criação de uma igreja cristã “compatível com os ideais germânicos” – entre eles, a destruição do cristianismo histórico, a retirada da Bíblia de tudo aquilo que fosse considerado de inspiração excessivamente judaica e a construção da figura de um Jesus conquistador e ariano. Em inúmeros sermões e impressos – como a Declaração de Barmen, em co-autoria com Bonhoeffer e Martin Niemoller –, o teólogo suíço enfatizava que apenas Cristo é o Senhor absoluto da Igreja, não cabendo tal privilégio a nenhum Estado, partido ou líder. Nascia a Igreja Confessante, grupo evangélico de resistência a Hitler.

“Essa luta de Barth contra o autoritarismo político e o controle ideológico da sociedade inteira é importante até hoje, no contexto da globalização”, sustenta o teólogo e filósofo Derval Dasilio, ministro da Igreja Presbiteriana Unida. Tal postura não ficaria impune. Em 1935, Barth foi oficialmente expulso da Alemanha, tendo seus diplomas anulados e seu visto cassado em solo germânico. De volta a Suíça, Barth continuou seu trabalho de oposição ao nazismo. Usando seu prestigio, denunciou ao mundo a criminosa situação imposta pelo Terceiro Reich a minorias como judeus, ciganos e deficientes físicos. Mantendo este vivo interesse pela defesa dos direitos humanos, apoiou ainda os republicanos espanhóis contra o regime fascista imposto pelo general Franco.

Personalidade sem estereótipos, a luta política levou-o ainda a protestar contra a Guerra Fria e o totalitarismo soviético da segunda metade do século. Embora socialista, ele não podia admitir um regime de coação às liberdades individuais – sobretudo a religiosa. Ao mesmo tempo, recusava-se a participar de uma cruzada anticomunista, alegando que o ateísmo de Moscou era fruto da filosofia ocidental, calcada em enormes injustiças sociais que condenavam milhões de pessoas a uma vida de miséria.

Nos últimos anos de sua vida, Karl Barth legou à posteridade mais alguns marcos de seu brilhantismo teológico. Morto em 1968, ele deixou inacabada sua Dogmática eclesiástica, coleção de treze tomos e quatro volumes que é considerada por muitos estudiosos como a maior coleção dogmática do protestantismo, atrás apenas das Institutas de Calvino. “Se fosse possível traçar uma espécie de linha sucessória dos teólogos cristãos, eu a faria desta forma: Paulo, Agostinho, Lutero, Calvino e Barth”, enumera Carlos Alberto Fernandes Chaves, pastor anglicano e mestre em ciências da religião pelo Seminário Bíblico Latino-Americano, em San José (Costa Rica). “Seu grande legado é a teologia dialética e seu apego à Palavra de Deus”, acrescenta o pastor e professor Éber Silveira Lima, professor do Seminário Teológico de São Paulo e doutor em história pela Universidade do Estado de São Paulo. “Creio que é preciso continuar a ler Barth para que percebamos a possibilidade de um cristianismo fiel, bíblico e relevante”, encerra.
*André Tadeu de Oliveira

04 fevereiro 2008

Silêncio forçado!

Se a Constituição Federal, em seu artigo 5º Insisos VI e VIII, garante a todo cidadão brasileiro a liberdade de consciência e o livre exercício dos cultos religiosos, ao que parece a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), empresa responsável pelo transporte ferroviário em São Paulo e os evangélicos pregadores que, diariamente, usam sua malha ferroviária, parecem que não estão falando a mesma língua ou respeitando o mesmo código. Nos últimos meses, a exemplo do que já acontece com os vendedores ambulantes, a empresa também tem feito uma marcação cerrada contra os pregadores, que se julgam perseguidos e humilhados ao serem retirados das composições. Com isso, uma das mais conhecidas e tradicionais formas de evangelização, pelo menos na capital paulista, parece estar com os dias contados.


O estopim de toda essa discussão aconteceu na estação Engenheiro Goulart, Zona Leste da cidade, onde três usuários – José Airton da Silva Santos, Agostinho Ferreira da Silva e Hilda Macedo de Oliveira, todos citados na ocorrência interna Nº 10904/2007 emitida pela empresa – foram obrigados a desembarcar, por estarem fazendo pregação religiosa. Em seu estatuto (NG 005), a CPTM esclarece que qualquer atividade que cause transtorno aos usuários, nas quais está incluída a pregação religiosa, é proibida. E argumenta ainda que tal decisão é fundamentada no Decreto Federal Nº 1832 de 04/03/96, que aprovou o Regulamento dos Transportes Ferroviários no país. “Antes da adoção de medidas regulamentares à pregação religiosa no interior dos trens e estações, a CPTM visitou várias igrejas evangélicas para informar sobre essa legislação e esclarecer dúvidas”, garante, ainda, sua assessoria de imprensa.


O evangelista Adeildo Francisco de Lima trabalha como segurança numa loja de artigos evangélicos em São Paulo e, durante o trajeto de casa para o emprego e vice-versa, ele aproveita o tempo para suas pregações, consciente de que está salvando muitas almas. Ele afirma que, por diversas vezes, foi vítima de represália por parte dos fiscais das estações: “Já levei muita pancada, cusparada, e tive minha Bíblia rasgada”, desabafa. E mesmo que não agrade à maioria dos passageiros com seus sermões e discursos inflamados, ele persiste com seu trabalho que considera o cumprimento de uma determinação de Deus. “Os pagodeiros se reúnem na Luz e ninguém fala nada. Tocar pagode, jogar truco, dizer palavrão, tudo isso pode, agora é só começar a falar de Deus que alguém já manda calar a boca”, compara. No último dia 2 de dezembro, domingo, a CPTM destinou os dois últimos carros da linha Jurubatuba/Osasco para um show de pagode, com diversos músicos, compositores e cantores, em comemoração ao Dia Nacional do Samba, com o objetivo difundir o gênero.


“Houve vezes em que, simplesmente por estar falando sobre a Bíblia no vagão, passei o dia todo em um cômodo minúsculo, com três ou quatro policiais que me intimidavam com um interrogatório digno de ser aplicado a um criminoso”, relembra Marcelo Silva, pastor responsável pela Cruzada Evangelística Interdenominacional nos Trens das Boas Novas, movimento responsável pela divulgação do Evangelho nos vagões da CPTM. “Procuramos não ser inconvenientes e nos conduzimos de forma organizada e equilibrada”, garante.


Diálogo – O líder do PSDB na Câmara dos Vereadores de São Paulo, Carlos Bezerra Júnior, reuniu-se em novembro com representantes da presidência da CPTM para discutir o problema. “Impedir iniciativas como essa é antidemocrático; não se pode cercear nem tratar com brutalidade cidadãos que estão professando sua fé de forma pacífica”, ressalta o vereador que, imediatamente após a reunião, encaminhou documento à CPTM solicitando providências no sentido de garantir que os evangélicos não sejam, novamente, vítimas de represálias. E uma das alternativas sugeridas seria a formação de um grupo de líderes e representantes cristãos para facilitar o diálogo com a empresa. “A ação do vereador foi muito importante; nunca fomos recebidos com tanta atenção. Essa é uma necessidade antiga e, finalmente, agora parece estar sendo atendida”, opina Denise Pereira, missionária da Cruzada.


Apesar da proibição dos cultos, os evangélicos expulsos dos trens da CPTM contam com a solidariedade de diversas pessoas, crentes ou não, como o pastor Renê que, num e-mail questiona: “Tudo isso está acontecendo na Zona Leste de São Paulo, mas será que o Brasil está se tornando uma China comunista com tanta perseguição?”.


Há mais de dois anos, a evangélica Maria de Lurdes de Oliveira, 38 anos, faz uma verdadeira maratona para ir, diariamente, de sua casa no bairro de Itaim Paulista a Pinheiros, onde trabalha como empregada doméstica. E nesse período, ela afirma ter presenciado muitas ocorrências no interior dos trens, desde pequenos furtos até discussões violentas. “Já vi também os guardas tomarem mercadoria dos ambulantes e bíblias dos evangélicos”, comenta. Para mim, fazer qualquer coisa que vá contra a Palavra de Deus é pecado, além de imoral”, acrescenta.


Mas se nem mesmo Jesus agradou a todos, não seriam os pregadores que iriam conquistar essa proeza. “Conheço muitos evangélicos que respeito, como os meus vizinhos. Mas, todos os dias, voltando do trabalho, assisto à pregação de uma mulher no trem. Ela só fica gritando: ‘Louva a Deus Cristo’ e ‘Louva a Deus Senhor’. Acho uma falta de respeito com os passageiros que não estão dispostos a ouvir. Se eu quisesse um sermão evangélico, iria para uma igreja. Essas pessoas acreditam, piamente, que se você não vai ao templo é porque tem o coração fechado”, comenta um dos passageiros, que pediu para que seu nome não fosse revelado.


Quadro: Vagão dos evangélicos


Uma situação que tem se tornado comum nos trens das grandes cidades, não somente brasileiras como também no exterior, é o agrupamento de pessoas com as mesmas afinidades ou características num mesmo local. Até mesmo a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) já estuda a possibilidade de destinar um dos vagões somente para gestantes. Entretanto, na maioria das vezes, o agrupamento corre por conta dos próprios usuários sem qualquer interferência das empresas. Na CPTM não é diferente, e uma das composições da linha Brás/Calmon Viana, que está entre as mais movimentas da Zona Leste, tornou-se uma espécie de ponto de encontro de evangélicos, e os cultos são comuns a qualquer hora do dia. “Não é sempre que dá certo, mas às vezes eu entro no vagão dos evangélicos. É como se estivesse orando na minha igreja, e até a viagem passa mais depressa”, comenta Maria de Lurdes. Face ao imbróglio causado entre os pregadores e a CPTM nos últimos meses, não é somente um dos mais tradicionais métodos de evangelização que corre o risco de acabar; a viagem do chamado “vagão dos evangélicos” também pode também estar chegando ao fim. Mas, para deixar os evangélicos um pouco mais tranqüilos, a CPTM argumenta: “A empresa não pode cercear o direito de ir e vir das pessoas, portanto não proíbe e nem proibirá que os evangélicos se reúnam para viajarem juntos. Qualquer cidadão tem o direito de viajar no vagão que desejar, em grupos ou sozinhas”.

José Donizetti Morbidelli

29 janeiro 2008

Profetas do óbvio

A frase passou pelo dramaturgo Nelson Rodrigues e chegou, agora, aos desafios do nosso cotidiano, nesses tempos de pouca tropa (a seara é grande, os trabalhadores são poucos) e reduzida elite – tem gente demais confundindo pregar com berrar, desconhecendo, assim, a força da suavidade em levar a Palavra de salvação como bálsamo de primeiríssima qualidade. Um escritor adaptou-a para deixá-la assim: “Só os profetas enxergam o óbvio”.


O dito exige reflexão. É instigante como Nietzsche, o filósofo alemão, a nos dizer que os amantes amam mais o amor do que a pessoa amada. Fernando Pessoa, o poeta, sabia (e dizia) que todas as cartas de amor são ridículas, o que, refletido, pode nos levar a concluir que aquele que ama não tem vergonha de ser considerado ridículo.


Ao óbvio, pois, sem temor ou vergonha. Num conto dos mais críticos, nosso Machado de Assis deu à obra o provocante título de a Igreja do Diabo, uma alegoria à decisão do chefão das forças do mal em institucionalizar uma igreja própria, com prédicas, bulas e novenas, reforçando o materialismo e abolindo sentimentos de culpa. Numa nova parábola, promoveu a metamorfose do vício em virtude. Ser soberbo, venal, adepto da luxúria e da preguiça passam a ser comportamentos tidos como nobres.


Machado descreve que a nova doutrina fascina a muita gente, mas o próprio símbolo das trevas fica surpreso ao descobrir, chocado, que muitos de seus novos seguidores praticavam, escondidos, as antigas virtudes cristãs. Tal cenário, como analisa a escritora Thaís Nicoleti de Camargo, “vale uma reflexão sobre a natureza humana, atualíssima nestes tempos em que a ética está em debate”.


Profeta, como sabemos, nunca foi adivinho. É, etimologicamente, um arauto. Foi, e pode ser, quem – sempre falando em nome de Deus – analisa conjunturas e comportamentos e lança sementes da verdade. Deixa claros padrões de justiça. Trata-se de alguém que mantém uma relação íntima, profunda, com o Altíssimo. É servo de Deus, mensageiro do Senhor.


Mas, porque o “óbvio”? Porque é impossível viver sem Deus. Óbvio. E caminhos aparentemente largos conduzem à perdição. Óbvio. Porque veredas estreitas podem levar à salvação. Óbvio. Porque o salário do pecado é a morte. Óbvio. Porque o Senhor é nossa verdade, nossa vida. Óbvio. Porque hoje se cultua o corpo, mas o perigo de se criar mofo nas almas é esquecido. Óbvio. E existem corpos sarados, na acepção do termo? Sim, óbvio. E o cultivo da alma, o regozijo, a alegria, o desfrutar pleno, é perseguido com o mesmo afinco, a mesma determinação? Contraponto óbvio.


Camus, o escritor francês, falava de um óbvio e advertia: corremos o risco de ser atacados e mortos se tivermos a ousadia de dizer publicamente que dois mais dois são quatro. Mas isso não é óbvio? Claro – mas não querem mais nem ouvir o óbvio. Sejamos, pois, mensageiros de Deus e profetas do óbvio.

Percival de Souza é escritor, jornalista e membro do Conselho Diretor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista

10 janeiro 2008

A convicção de pecado

O evangelicalismo contemporâneo brasileiro praticamente fez desaparecer a necessidade do pecador se convencer de seu real estado diante de um Deus santo. O tema desapareceu em nossos cultos, e isso pode ser constatado a cada domingo em nossas reuniões evangélicas. As razões que são apresentadas para o pecador se converter passam pelo fim do sofrimento, a conquista da prosperidade econômica, a obtenção de um emprego melhor ou a salvação do casamento – e, até mesmo, a possibilidade de arrumar um novo. Nada se fala da necessidade do homem, sem Deus, reconhecer que é um pecador que vive em inimizade com o Criador, e que, por isso, precisa urgentemente de reconciliação com Deus através da mediação única e exclusiva de Jesus Cristo.


O profeta João Batista, que hoje seria considerado um pregador “muito duro”, disse que sobre todo aquele que rejeitasse o Filho de Deus, a ira do Senhor permaneceria. (João 3.36). Interessante neste texto é o emprego do verbo permanecer (do grego menei). Ou seja, quem rejeitasse Jesus Cristo continuaria sendo alvo da ira de Deus. João reconhece que o homem naturalmente já está debaixo da ira de Deus. Ela é uma realidade presente e não futura, e o homem sem Cristo permanece com esta ira sobre si.


Assim é o verdadeiro estado do homem. Ele é, por natureza, inimigo de Deus. E é dessa inimizade que o pecador precisa se convencer. Sendo inimigo do Senhor, e, portanto, alvo de sua ira, o homem corre um grande perigo de, a qualquer momento, partir deste mundo sem estar em paz com Deus e ter que enfrentá-lo face a face. Ou seja, terá que, como miserável pecador que é, morto em delitos e pecados, enfrentar um Deus santo e justo.O que precisamso resgatar em nossas igrejas é o conceito de que o homem é um pecador miserável e precisa reconciliar-se com o Senhor. Esta, sim, é sua maior necessidade em vida. Os puritanos nos séculos 17 e 18 tratavam muito seriamente a questão da convicção de pecado. Entendiam que era a porta de entrada para o céu. Acreditavam piamente que um homem que não experimentasse a certeza de que era um terrível pecador não teria do que se arrepender e, assim, jamais chegaria à conclusão de que precisava de Jesus Cristo como seu salvador pessoal. Por esta razão pregavam ardentemente sobre o pecado, a ira de Deus e o estado do homem sem Cristo, na esperança que Espírito Santo tocasse nos corações endurecidos.


O método dos puritanos na evangelização era interessante. Quando pregavam, desejavam ver a necessidade confrontar-se com a impossibilidade. Ou seja, insistiam na necessidade do pecador se arrepender, ao mesmo tempo que também insistiam na impossibilidade do pecador alcançar tal arrependimento por si mesmo. Assim, quando o pecador percebia o abismo em que estava e que o arrependimento era impossível de ser promovido por qualquer esforço próprio, ele se desesperava. Era o momento então de falar da boa notícia – o perdão que está em Cristo Jesus. E da plena e real reconciliação que o Salvador promove entre o pecador e Deus. Os puritanos jamais evangelizavam sem abordar a questão do pecado.


A convicção de pecado é um elemento ausente na pregação contemporânea. Mas não nos esqueçamos que ela que permitiu a Isaías ser comissionado para o ministério profético. “Ai de mim! Sou hojmem de lábios impuros”, foi seu brado diante do Deus santo. Foi a convicção de pecado que fez estremecer a alma de Martinho Lutero, lançando-o em profunda angústia. Sua pergunta fundamental era: “Como posso encontrar o Deus misericordioso sendo eu tão pecador?”


Foi a convicção de pecado que lançou John Bunyan, autor de O peregrino, nas profundezas do desespero a ponto de invejar a tranqüilidade dos cisnes que povoavam as lagoas da cidade em que morava. Foi tal sentimento também que despertou a comunidade de Enfield, em Connecticut, nos Estados Unidos, a viver uma vida mais santa e consagrada a Deus. Tudo a partir do célebre sermão Pecadores nas mãos de um Deus irado, proferido pelo pastor Jonathan Edwards em 8 de julho de 1741.


Não nos esqueçamos de que uma das declarações mais fundamentais do Novo Testamento é “arrependei-vos e crede no Evangelho” (Marcos 1.15). Ora, só posso crer no Evangelho se primeiro arrepender-me, pois é o arrependimento de meus pecados que me levará a buscar Jesus Cristo, que é a única solução para a minha salvação.


Sejamos, portanto, portadores da boa notícia sem, contudo, abrir mão da má notícia de que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. E a boa notícia é que o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo, nosso Senhor, conforme Romanos 6:23. Uma verdade não pode omitir outra; assim, teremos em nossas igrejas cada vez mais pessoas realmente convertidas, regeneradas pelo sangue do Senhor Jesus. Somente assim faremos diminuir aceleradamente o número de crentes interesseiros e barganhistas que só querem as bênçãos do Mestre, e não o Mestre.


Idauro Camposé teólogo, professor de educação religiosa e pastor da União das Igrejas Evangélicas.

31 dezembro 2007

Feliz 2008!!!

"Que a fé e a esperança num futuro melhor sejam revividas a cada dia no seu coração."

Um abraço!!!
Eduardo Neves.

30 dezembro 2007

Cristo morto ou ressuscitado?

Para muitos, a cruz passou a ser o centro da história. Sem ela, nada na vida tem significado. Seu simbolismo remete diretamente à salvação.

A salvação de todos, através do trabalho missionário e evangelístico, tem sido o objetivo de muitas denominações evangélicas. A abordagem do trabalho na Igreja tem sido, em sua grande maioria, tirar o pecador do lamaçal do pecado. Depois de convertido, o novo crente logo aprende que também deve se engajar nessa tarefa árdua de levar outros a Cristo, para que, depois de convertidos, possam estes também levar outros aos pés do Senhor, e assim por diante.

Nada de errado há, claro, com a necessidade da pregação do Evangelho e do trabalho missionário. A questão é que, quando focamos apenas a cruz e tão somente a evangelização como obra central da Igreja, deixamos de lado o que é mais importante – a vitória de Jesus Cristo pela ressurreição. Um Cristo morto é como qualquer outro líder religioso também morto, mas não ressuscitado. Um Cristo morto é apenas ignomínia, desprezo, maldição – ele se fez maldição por nós.Se enfatizarmos apenas a cruz e a salvação, corremos o grave risco de pregarmos um evangelho antropocêntrico, que só interessa ao homem. Seria como focalizar o presente ao liberar o homem de suas angústias materiais ou apenas alimentar o desejo humano de evitar o inferno.

A ressurreição é tão importante que Cristo é declarado Filho de Deus por meio dela. A cruz foi importante; sem ela, não haveria perdão de pecados. Mas o que dá significado ao Evangelho é a obra completa que se realizou pela ressurreição. Portanto, a pedra removida do sepulcro é o centro da história humana, e não a cruz. Sem a ressurreição, nossa fé seria vã, disse o apóstolo Paulo, que também mostrou que assim como fomos crucificados com Cristo, devemos ser com ele ressuscitados em novidade de vida.Ser salvo requer apenas o exercício do arrependimento e da fé. Mas prosseguir para assumir uma nova vida, uma vida ressuscitada, requer abnegação incondicional a cada momento. Isso é centenas de vezes indesejável – afinal, quem desejaria abandonar sua vontade, suas aspirações, seus bens e direitos, e diariamente entregá-los no altar de Jesus, conforme Romanos 12.1?

O Evangelho da cruz é mais fácil. Mas Jesus não ficou no túmulo. Será que ainda vale a pena continuar no túmulo de nossa vida?

Lourenço Stelio Regaé teologo, educador e escritor.