29 janeiro 2008

Profetas do óbvio

A frase passou pelo dramaturgo Nelson Rodrigues e chegou, agora, aos desafios do nosso cotidiano, nesses tempos de pouca tropa (a seara é grande, os trabalhadores são poucos) e reduzida elite – tem gente demais confundindo pregar com berrar, desconhecendo, assim, a força da suavidade em levar a Palavra de salvação como bálsamo de primeiríssima qualidade. Um escritor adaptou-a para deixá-la assim: “Só os profetas enxergam o óbvio”.


O dito exige reflexão. É instigante como Nietzsche, o filósofo alemão, a nos dizer que os amantes amam mais o amor do que a pessoa amada. Fernando Pessoa, o poeta, sabia (e dizia) que todas as cartas de amor são ridículas, o que, refletido, pode nos levar a concluir que aquele que ama não tem vergonha de ser considerado ridículo.


Ao óbvio, pois, sem temor ou vergonha. Num conto dos mais críticos, nosso Machado de Assis deu à obra o provocante título de a Igreja do Diabo, uma alegoria à decisão do chefão das forças do mal em institucionalizar uma igreja própria, com prédicas, bulas e novenas, reforçando o materialismo e abolindo sentimentos de culpa. Numa nova parábola, promoveu a metamorfose do vício em virtude. Ser soberbo, venal, adepto da luxúria e da preguiça passam a ser comportamentos tidos como nobres.


Machado descreve que a nova doutrina fascina a muita gente, mas o próprio símbolo das trevas fica surpreso ao descobrir, chocado, que muitos de seus novos seguidores praticavam, escondidos, as antigas virtudes cristãs. Tal cenário, como analisa a escritora Thaís Nicoleti de Camargo, “vale uma reflexão sobre a natureza humana, atualíssima nestes tempos em que a ética está em debate”.


Profeta, como sabemos, nunca foi adivinho. É, etimologicamente, um arauto. Foi, e pode ser, quem – sempre falando em nome de Deus – analisa conjunturas e comportamentos e lança sementes da verdade. Deixa claros padrões de justiça. Trata-se de alguém que mantém uma relação íntima, profunda, com o Altíssimo. É servo de Deus, mensageiro do Senhor.


Mas, porque o “óbvio”? Porque é impossível viver sem Deus. Óbvio. E caminhos aparentemente largos conduzem à perdição. Óbvio. Porque veredas estreitas podem levar à salvação. Óbvio. Porque o salário do pecado é a morte. Óbvio. Porque o Senhor é nossa verdade, nossa vida. Óbvio. Porque hoje se cultua o corpo, mas o perigo de se criar mofo nas almas é esquecido. Óbvio. E existem corpos sarados, na acepção do termo? Sim, óbvio. E o cultivo da alma, o regozijo, a alegria, o desfrutar pleno, é perseguido com o mesmo afinco, a mesma determinação? Contraponto óbvio.


Camus, o escritor francês, falava de um óbvio e advertia: corremos o risco de ser atacados e mortos se tivermos a ousadia de dizer publicamente que dois mais dois são quatro. Mas isso não é óbvio? Claro – mas não querem mais nem ouvir o óbvio. Sejamos, pois, mensageiros de Deus e profetas do óbvio.

Percival de Souza é escritor, jornalista e membro do Conselho Diretor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista

10 janeiro 2008

A convicção de pecado

O evangelicalismo contemporâneo brasileiro praticamente fez desaparecer a necessidade do pecador se convencer de seu real estado diante de um Deus santo. O tema desapareceu em nossos cultos, e isso pode ser constatado a cada domingo em nossas reuniões evangélicas. As razões que são apresentadas para o pecador se converter passam pelo fim do sofrimento, a conquista da prosperidade econômica, a obtenção de um emprego melhor ou a salvação do casamento – e, até mesmo, a possibilidade de arrumar um novo. Nada se fala da necessidade do homem, sem Deus, reconhecer que é um pecador que vive em inimizade com o Criador, e que, por isso, precisa urgentemente de reconciliação com Deus através da mediação única e exclusiva de Jesus Cristo.


O profeta João Batista, que hoje seria considerado um pregador “muito duro”, disse que sobre todo aquele que rejeitasse o Filho de Deus, a ira do Senhor permaneceria. (João 3.36). Interessante neste texto é o emprego do verbo permanecer (do grego menei). Ou seja, quem rejeitasse Jesus Cristo continuaria sendo alvo da ira de Deus. João reconhece que o homem naturalmente já está debaixo da ira de Deus. Ela é uma realidade presente e não futura, e o homem sem Cristo permanece com esta ira sobre si.


Assim é o verdadeiro estado do homem. Ele é, por natureza, inimigo de Deus. E é dessa inimizade que o pecador precisa se convencer. Sendo inimigo do Senhor, e, portanto, alvo de sua ira, o homem corre um grande perigo de, a qualquer momento, partir deste mundo sem estar em paz com Deus e ter que enfrentá-lo face a face. Ou seja, terá que, como miserável pecador que é, morto em delitos e pecados, enfrentar um Deus santo e justo.O que precisamso resgatar em nossas igrejas é o conceito de que o homem é um pecador miserável e precisa reconciliar-se com o Senhor. Esta, sim, é sua maior necessidade em vida. Os puritanos nos séculos 17 e 18 tratavam muito seriamente a questão da convicção de pecado. Entendiam que era a porta de entrada para o céu. Acreditavam piamente que um homem que não experimentasse a certeza de que era um terrível pecador não teria do que se arrepender e, assim, jamais chegaria à conclusão de que precisava de Jesus Cristo como seu salvador pessoal. Por esta razão pregavam ardentemente sobre o pecado, a ira de Deus e o estado do homem sem Cristo, na esperança que Espírito Santo tocasse nos corações endurecidos.


O método dos puritanos na evangelização era interessante. Quando pregavam, desejavam ver a necessidade confrontar-se com a impossibilidade. Ou seja, insistiam na necessidade do pecador se arrepender, ao mesmo tempo que também insistiam na impossibilidade do pecador alcançar tal arrependimento por si mesmo. Assim, quando o pecador percebia o abismo em que estava e que o arrependimento era impossível de ser promovido por qualquer esforço próprio, ele se desesperava. Era o momento então de falar da boa notícia – o perdão que está em Cristo Jesus. E da plena e real reconciliação que o Salvador promove entre o pecador e Deus. Os puritanos jamais evangelizavam sem abordar a questão do pecado.


A convicção de pecado é um elemento ausente na pregação contemporânea. Mas não nos esqueçamos que ela que permitiu a Isaías ser comissionado para o ministério profético. “Ai de mim! Sou hojmem de lábios impuros”, foi seu brado diante do Deus santo. Foi a convicção de pecado que fez estremecer a alma de Martinho Lutero, lançando-o em profunda angústia. Sua pergunta fundamental era: “Como posso encontrar o Deus misericordioso sendo eu tão pecador?”


Foi a convicção de pecado que lançou John Bunyan, autor de O peregrino, nas profundezas do desespero a ponto de invejar a tranqüilidade dos cisnes que povoavam as lagoas da cidade em que morava. Foi tal sentimento também que despertou a comunidade de Enfield, em Connecticut, nos Estados Unidos, a viver uma vida mais santa e consagrada a Deus. Tudo a partir do célebre sermão Pecadores nas mãos de um Deus irado, proferido pelo pastor Jonathan Edwards em 8 de julho de 1741.


Não nos esqueçamos de que uma das declarações mais fundamentais do Novo Testamento é “arrependei-vos e crede no Evangelho” (Marcos 1.15). Ora, só posso crer no Evangelho se primeiro arrepender-me, pois é o arrependimento de meus pecados que me levará a buscar Jesus Cristo, que é a única solução para a minha salvação.


Sejamos, portanto, portadores da boa notícia sem, contudo, abrir mão da má notícia de que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. E a boa notícia é que o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo, nosso Senhor, conforme Romanos 6:23. Uma verdade não pode omitir outra; assim, teremos em nossas igrejas cada vez mais pessoas realmente convertidas, regeneradas pelo sangue do Senhor Jesus. Somente assim faremos diminuir aceleradamente o número de crentes interesseiros e barganhistas que só querem as bênçãos do Mestre, e não o Mestre.


Idauro Camposé teólogo, professor de educação religiosa e pastor da União das Igrejas Evangélicas.

31 dezembro 2007

Feliz 2008!!!

"Que a fé e a esperança num futuro melhor sejam revividas a cada dia no seu coração."

Um abraço!!!
Eduardo Neves.

30 dezembro 2007

Cristo morto ou ressuscitado?

Para muitos, a cruz passou a ser o centro da história. Sem ela, nada na vida tem significado. Seu simbolismo remete diretamente à salvação.

A salvação de todos, através do trabalho missionário e evangelístico, tem sido o objetivo de muitas denominações evangélicas. A abordagem do trabalho na Igreja tem sido, em sua grande maioria, tirar o pecador do lamaçal do pecado. Depois de convertido, o novo crente logo aprende que também deve se engajar nessa tarefa árdua de levar outros a Cristo, para que, depois de convertidos, possam estes também levar outros aos pés do Senhor, e assim por diante.

Nada de errado há, claro, com a necessidade da pregação do Evangelho e do trabalho missionário. A questão é que, quando focamos apenas a cruz e tão somente a evangelização como obra central da Igreja, deixamos de lado o que é mais importante – a vitória de Jesus Cristo pela ressurreição. Um Cristo morto é como qualquer outro líder religioso também morto, mas não ressuscitado. Um Cristo morto é apenas ignomínia, desprezo, maldição – ele se fez maldição por nós.Se enfatizarmos apenas a cruz e a salvação, corremos o grave risco de pregarmos um evangelho antropocêntrico, que só interessa ao homem. Seria como focalizar o presente ao liberar o homem de suas angústias materiais ou apenas alimentar o desejo humano de evitar o inferno.

A ressurreição é tão importante que Cristo é declarado Filho de Deus por meio dela. A cruz foi importante; sem ela, não haveria perdão de pecados. Mas o que dá significado ao Evangelho é a obra completa que se realizou pela ressurreição. Portanto, a pedra removida do sepulcro é o centro da história humana, e não a cruz. Sem a ressurreição, nossa fé seria vã, disse o apóstolo Paulo, que também mostrou que assim como fomos crucificados com Cristo, devemos ser com ele ressuscitados em novidade de vida.Ser salvo requer apenas o exercício do arrependimento e da fé. Mas prosseguir para assumir uma nova vida, uma vida ressuscitada, requer abnegação incondicional a cada momento. Isso é centenas de vezes indesejável – afinal, quem desejaria abandonar sua vontade, suas aspirações, seus bens e direitos, e diariamente entregá-los no altar de Jesus, conforme Romanos 12.1?

O Evangelho da cruz é mais fácil. Mas Jesus não ficou no túmulo. Será que ainda vale a pena continuar no túmulo de nossa vida?

Lourenço Stelio Regaé teologo, educador e escritor.

12 dezembro 2007

A contemplação do belo

Vivemos numa sociedade tecnológica que valoriza mais a ação e a funcionalidade do que a contemplação. Ao reverter estes valores, terminamos por exaltar a produtividade, dando ao homem a prerrogativa de ser ele o agente que fabrica a realidade a partir das ferramentas tecnológicas que possui. O meio e o fim são invertidos e a vida passa a ser medida pelo sucesso, desempenho e eficiência. Somos constantemente desafiados a ter vida, ministério, trabalho, família, lazer ou sexo com propósito – tudo muito pragmático e funcional. A quantidade de livros com as famosas receitas de “como” enchem nossas livrarias: “Como ter uma família saudável”,Como obter o melhor de Deus” ou “Como desenvolver um ministério eficaz”, reduzindo a vida a esquemas produtivos. É a nova mentalidade tecnológica transformando as complexidades humanas e espirituais em pequenos defeitos que podem ser consertados com o uso correto de um bom manual e das ferramentas que ele sugere. A felicidade e a realização estão no resultado.


A beleza está no produto final, e não no que é simplesmente belo. Uma das grandes perdas que temos sofrido com a alta tecnologia da sociedade pós-moderna e a obsessão pelo sucesso é a da percepção da beleza. Valorizamos cada vez mais a eficiência e cada vez menos a arte. Preferimos o fast food, e não mais saborear uma boa refeição. Substituímos o real e o natural pelo virtual e pelo plástico. Vivemos como um turista que leva nas viagens suas câmeras e filmadoras digitais para não perder tempo contemplando a beleza da arte ou da criação. A aparência nos impressiona mais do que a realidade. Dentro de nossas igrejas, o efeito da mentalidade tecnológica é sutil e devastador. Imaginamos que se temos uma boa liturgia, boa música e coreografia, teremos um bom louvor e uma boa adoração. Se temos um programa eficiente, teremos um bom e fiel ministério. Se temos um bom sistema de integração de visitantes, teremos uma boa comunhão. A tecnologia nos afasta do belo e o reduz a um programa que nos ilude e nos leva a pensar que a beleza está na eficiência do produto e não mais no olhar, no gesto de fé e coragem, na criatividade ou num simples sorriso. A incapacidade de perceber a beleza é um dos sinais mais evidentes de que temos perdido nossa relação pessoal com Deus. Falamos mais sobre a utilidade da obra da cruz e menos da beleza do crucificado. Somos mais atraídos pela funcionalidade da igreja e por suas atividades do que pela beleza da comunhão de amor e amizade entre os santos. Somos cada vez mais seduzidos pelos encantos de uma vida bem sucedida do que pela beleza da santidade. No entanto, a alma humana anseia pelo que é belo. Anseia pela harmonia da criação, pela nobreza da vida em comunhão, pela pureza do amor, pela glória da ressurreição, pelas realidades não visíveis. É a beleza que sustenta o coração em meio à dor e ao desespero. Santo Agostinho fez esta pergunta: “Podemos amar outra coisa senão a beleza?” Quando olhamos para a lista que o apóstolo Paulo nos apresenta das obras da carne, vemos ali um conjunto assimétrico, sem harmonia e beleza. São expressões que descrevem as formas mais bizarras de egoísmo, exploração, mutilação e destruição. Mas quando ele abre a lista do fruto do Espírito, vemos uma relação simétrica, harmoniosa e bela que nos atrai para Deus e o próximo. As “bem aventuranças” também são belas pela sua harmonia. A cultura moderna valoriza mais as obras da carne como expressões de realização e liberdade, do que o fruto do Espírito. Isso revela o grau de alienação em que vivemos. O livro do Cântico dos Cânticos é um convite à contemplação da beleza e da harmonia: “Como você é linda, minha querida! Ah, como é linda!”; ou “Como você é belo, meu amado! Ah, como é encantador!” A beleza contemplada em Cantares não é apenas estética. Ali, o belo é a harmonia de tudo o que existe dentro e fora, e de tudo o que envolve Deus e sua criação. O belo existe para ser contemplado. Não é sua utilidade ou propósito que nos atrai, mas sua beleza e harmonia. Ele pode até ser útil, mas não é isso que nos fascina. O belo não precisa ser útil para ser belo. O salmista nos convida para “adorar a Deus na beleza da sua santidade”. O ser Santo de Deus nos atrai porque revela a harmonia de todos os seus atributos (amor, justiça, misericórdia, bondade, poder etc) e a harmonia em toda a sua criação – “Viu Deus que tudo era muito bom”, conforme o Gênesis. Santo Agostinho em suas confissões, diz:

“Que amo eu, quando vos amo? Não amo a formosura corporal, nem a glória temporal, nem a claridade da luz, tão meiga destes meus olhos, nem as doces melodias das canções de todo o gênero, nem o suave cheiro das flores, dos perfumes ou dos aromas, nem o maná ou o mel, nem os membros tão flexíveis aos abraços da carne. Nada disso amo, quando amo meu Deus. E contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço, quando amo meu Deus; brilha para a minha alma uma luz que nenhum espaço contém, onde ressoa uma voz que o tempo não arrebata, onde se exala um perfume que o vento não esparge, onde se saboreia uma comida que a sofreguidão não diminui, onde se sente um contato que a saciedade não desfaz. Eis o que amo, quando amo meu Deus”.


Para Agostinho, seu encontro com Deus trouxe de volta a harmonia e a beleza. Para ele, amar a Deus envolve, entre outras coisas, romper com o caos, recuperar os sentidos, olhar em volta e perceber a graça e a bondade de Deus na luz do sol, na escuridão da noite, na ingenuidade infantil e nas tribulações da vida. Precisamos recuperar a contemplação e o belo numa cultura pragmática e fortemente determinada pelas forças do mercado. Precisamos resistir à pressão pela produtividade. Precisamos voltar a entrar na igreja simplesmente para adorar a Deus na beleza de sua santidade e reconhecer: “Que magníficas são, Senhor, as tuas obras! Quão profundos são os teus pensamentos!” Precisamos voltar a reconhecer a harmonia e a grandeza da criação e da obra de Cristo e celebrar a beleza da presença de Deus na vida e na história, para que a oração recupere seu significado.

Ricardo Barbosa de Souzaé conferencista e pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasilia

29 novembro 2007

O Holocausto do século 16

Com o advento do Cristianismo, o mundo – mais precisamente, o velho continente europeu – passou por muitas crises de ordem política e social, mas nada se compara ao conflito protagonizado por católicos e protestantes na França, no século 16, em decorrência de divergências entre a nobreza, o clero e a burguesia, agravadas pelo crescimento das correntes protestantes. Seguidores remanescentes de Martinho Lutero (1483-1546), que para contestar os abusos eclesiásticos fixou suas idéias de renovação na porta de uma igreja na Alemanha, iniciando assim a Reforma protestante; e de João Calvino (1509-1564), que fundou a Igreja Reformada e inseriu uma nova maneira de pensar a relação de Deus com a humanidade, foram os personagens de uma revolução religiosa que abalou as estruturas da Igreja Católica. Apesar de divergir do luteranismo em alguns aspectos, o calvinismo teve grande influência para o fortalecimento do pensamento reformista.

Antes da Reforma protestante, o catolicismo – imposto pela força coercitiva – era a religião oficial da Europa. E como autoridade máxima da Igreja Católica, as decisões do papa tinham tanto valor quanto as Escrituras Sagradas. Contudo, uma série de práticas que não condiziam com a atitude dos chamados “representantes de Deus”, como a riqueza material do alto clero, o uso indevido do dinheiro das ofertas e a prática da simonia – comércio de materiais sagrados e venda de cargos eclesiásticos – estava levando o povo à miséria e revoltando as camadas mais baixas da população. Esse descontentamento foi um dos motivos do surgimento de pensamentos reformistas baseados, principalmente, na doutrina de salvação somente pela fé e não pelas práticas cristãs. Por sua vez, o catolicismo ensinava que para alcançar a salvação era necessária a fé e a realização de boas obras estabelecidas pela igreja. Além do mais, os reformistas também julgavam inúteis o trabalho exercido pelos mediadores entre Deus e os fiéis.

Enock da Silva Pessoa, professor do departamento de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Acre, destaca a importância da ação promovida pelos reformistas: “Um grande número de intelectuais defende a Reforma protestante do século 16 como um marco histórico relevante na luta pelas liberdades democráticas, individuais e coletivas, e o luteranismo alcançou os objetivos de libertação social, política e religiosa, diminuindo a dominação política da Igreja sobre o Estado”, aponta.

Abusos – Os abusos do clero descontentavam também o rei da Inglaterra, Henrique VIII, que rompeu definitivamente as relações com o papa Clemente VII e promoveu a Reforma protestante em seu país. Assim, surgiu a Igreja Anglicana, da qual o monarca tornou-se chefe supremo, exigindo obediência dos súditos sob a pena de morte. Ainda, em solo inglês, fincaram-se os alicerces da Igreja Presbiteriana, também em decorrência de questões político-sociais.

Diante desse quadro, a Igreja Católica viu-se obrigada a tomar providências para manter a ordem e restabelecer seu poder nos principais centros europeus. Se a Reforma teve maior adesão em países com a Alemanha e a Inglaterra, na França – onde o absolutismo era mais radical – a entrada dos reformistas não foi nem um pouco pacífica, o que agravou ainda mais a crise entre as oposições religiosas. Em decorrência desse conflito, surgiram dois partidos políticos, cada um com interesses próprios: do lado dos católicos, o Papista; e, em favor dos protestantes, o Huguenote, expressão depreciativa atribuída pelos católicos franceses. Seguidores de João Calvino – um segmento formado por artesãos, comerciantes e nobres –, eles viviam no oeste e sudoeste francês sob constante ameaça, empenhados em disputas religiosas que se alastraram por várias cidades e culminou na madrugada de 24 de agosto de 1572, quando milhares de calvinistas foram massacrados, num dos episódios mais sangrentos que a História registra. Pegos de surpresa com ataques planejados pela família real e mediante o beneplácito da Igreja Católica, os huguenotes nada puderam fazer além de sucumbir sob as lanças e espadas do exército francês.

Do alto das torres sinos repicavam, nas ruas formavam-se procissões alegradas por cânticos de louvor em agradecimento a Deus pelos extermínio dos “hereges” e pela liquidação dos “malditos”. Em Roma, os sinos também soaram, denotando o contentamento do papa pela vitória dos católicos e da Coroa francesa sobre a corrente protestante, vista como uma peste que colocava em risco a liderança exercida pelo conclave. Até uma moeda comemorativa foi cunhada, além do pontífice encarregar o artista Giorgio Vasari da pintura de um mural celebrando o ocorrido. Por ter ocorrido em 24 de agosto, dia dedicado ao santo católico Bartolomeu, o episódio ficou conhecido como Noite de São Bartolomeu.

Semente – “A Noite de São Bartolomeu evidenciou a rivalidade política dos partidos que usavam a religião como pano de fundo para encobrir outros interesses”, comenta Arthur Prado Netto, pesquisador da Oficina Cinema-História, núcleo ligado ao departamento de História da Universidade Federal da Bahia. O estopim para a carnificina teve como precedente uma série de ligações envolvendo membros da nobreza. A França vivia sob o reinado do jovem Carlos IX, mas quem dava as ordens era sua mãe – Catarina de Médicis – que julgava o filho incapaz de tomar decisões importantes. Para acalmar as hostilidades entre católicos e protestantes, a solução encontrada foi uma aliança, o casamento de sua filha, Margarida de Valois, com o protestante Henri de Navarra, um aspirante ao trono.

O imbróglio começou quando um agente católico tentou assassinar o líder huguenote Gaspard de Coligny a mando da rainha-mãe, por receio da influência que ele exercia sobre o rei. Apesar da tentativa frustrada, o episódio enfureceu os protestantes. Convencido pelos aliados de que, durante a festa de casamento, centenas de calvinistas estariam em Paris tramando uma conspiração para tirar a coroa e a vida do monarca, Carlos IX não teve dúvidas e autorizou o massacre em massa dos supostos conspiradores, inclusive de seu líder. Com a bênção e a absolvição do crime por parte do papa Gregório XIII aos católicos, os ataques continuaram, atingindo as principais cidades do país. As águas dos rios ficaram infestadas por cadáveres insepultos, e o mau cheiro se espalhou pela capital francesa por vários meses. Pela estimativa, quase 100 mil huguenotes foram mortos durante os conflitos. Historicamente, a Noite de São Bartolomeu ficou conhecida como a mais terrível entre as ações diabólicas de todos os tempos. Os sobreviventes ao massacre foram obrigados a largar os pertences e fugir, espalhando-se pela Europa.

Em nome da França, então chamada de a “filha predileta da Igreja”, a rainha jurou que, a partir daquele dia, nenhum protestante nasceria naquele solo. A “peste”, segundo a ótica católica, havia sido exterminada – contudo, o episódio foi muito mais além. A partir dali, a teologia reformada espalhou-se pelo mundo. O episódio acabou tendo reflexos diretos sobre o Brasil. Fugindo da França que ardia em perseguições, o primeiro grupo de protestantes a desembarcar em terras brasileiras foi trazido pelo aventureiro Nicolas Durant de Villegagnon em 1557, com o objetivo de fundar uma colônia para os perseguidos. Dois anos mais tarde, aportou por aqui um grupo de apóstolos com missão evangelística, formado na maioria por protestantes. Era a França Antártica, empreitada que acabou não dando certo mas entrou para a História como a primeira tentativa efetiva de evangelização no Brasil, um passo decisivo para que o país chegasse ao século 21 como a segunda maior nação evangélica do mundo.

José Donizetti Morbidelli
Jornalista e assessor de comunicação e marketing

04 novembro 2007

Os justos e a cidade

“Aí o Senhor disse a Abraão: ‘Há terríveis acusações contra Sodoma e Gomorra, e o pecado dos seus moradores é muito grave’. Abraão disse: ‘Não fiques zangado, Senhor, pois esta é a última vez que vou falar. E se houver ali só dez pessoas direitas?’ ‘Por causa desses dez, não destruirei a cidade’, Deus respondeu.” A história está narrada no capítulo 18 do livro de Gênesis. Estava decidido: se constatasse que, de fato, as cidades de Sodoma e Gomorra eram pura corrupção em todos os sentidos, como parecia, Deus não pensaria duas vezes e as destruiria. Não era possível ao Senhor ver na terra que ele havia criado um povo tão cheio de malícia, mentira e perversidade. Era preciso colocar um ponto final naquela situação, que era uma agressão constante à santidade de Deus. E quem conhecia a região, como Abraão, sabia que dificilmente aquelas duas cidades teriam qualquer chance de escapar da fúria divina. Ele sofria só de pensar na destruição daqueles povos, mas não tinha jeito. Ou tinha?Talvez, sim. Abraão lembrou-se de um dos atributos que Deus mais prezava: a justiça. Se por amor a essa justiça, o Senhor estava próximo de acabar com Sodoma e Gomorra, era possível que o mesmo zelo divino fosse a salvação para aquelas cidades. Então, o patriarca do povo hebreu começa a interpelar Deus. Com uma ousadia que beirava o abuso, desafiava os limites do Senhor – será que as vidas de cinqüenta pessoas retas de coração não valeriam mais do que a dos milhares de corruptos? Ou quarenta? Trinta? Ou mesmo dez? A cada interpelação de Abraão, Deus respondia com uma afirmação de sua misericórdia e seu amor, sempre disposto a oferecer alguma chance para o ser humano reencontrar a dignidade com a qual fora criado, e de que abrira mão.Há dois aspectos dessa passagem que merecem reflexão. O primeiro deles tem a ver com a atitude divina diante de um cenário de degradação de valores e princípios: por mais caótico que fosse o estado espiritual e ético da população de Sodoma e Gomorra, os retos de coração – mesmo que fossem uma minoria – seriam a referência de Deus. Ao garantir a Abraão que não destruiria aquelas cidades se encontrasse, pelo menos, dez pessoas justas, o Senhor estava dizendo: “Minha decisão não será tomada em função dos corruptos. As ações deles me enojam, e serão condenados por elas, seja aqui ou no dia do grande Julgamento. Mas aqueles que praticam atos de justiça em meio à corrupção estão sendo agentes de meu Reino. Para mim, este é um motivo mais do que suficiente para poupar uma cidade inteira.”Em segundo lugar, Deus revelou, em seu rápido diálogo com seu servo Abraão, ser mais otimista em relação a este mundo do que nós mesmos somos. É possível que Abraão não esperasse que o Senhor fosse tão longe – talvez parasse nas quarenta ou nas trinta pessoas direitas. Dali para a frente, seria só condenação. No entanto, Deus foi ultrapassando os limites de Abraão, que parou nos dez justos muito provavelmente porque, para seu senso humano e incompleto de justiça, esta era uma quantidade razoável, a partir da qual seria mais do que natural ver a ira divina cair sobre aqueles povos.No entanto, o Senhor estava declarando sua confiança na supremacia da justiça sobre a corrupção e o pecado. Sob a ótica celestial, a presença de cinqüenta, quarenta ou mesmo dez pessoas comprometidas com os valores do Reino já seria suficiente para transformar aquelas cidades e resgatar a dignidade original das pessoas que viviam nelas. A maldade pode contagiar um povo e levar milhões de pessoas à ruína – mas o amor e a justiça de Deus são capazes de produzir uma revolução quando sinalizados nas vidas daqueles que o temem e servem, mesmo que sejam poucos. Mesmo que seja um.Prova disto é Nínive, uma cidade próspera, com mais de 120 mil habitantes – uma metrópole para a época em que viveu o profeta Jonas. Sendo ex-capital da Assíria e um grande centro de comércio, localizado à margem do Rio Tigre e no meio do caminho entre o Oriente e o Ocidente (portanto, politicamente influente), caiu em dois erros fatais: tolerou todo tipo de corrupção e desprezou o princípio divino da justiça. Também estava condenada a se transformar em cinzas, tal como Sodoma e Gomorra. Nem mesmo havia ali cinqüenta, trinta ou dez justos cuja presença fosse capaz de poupá-la. Mas bastou que um homem de coração reto começasse a denunciar os pecados da cidade, e logo toda a população – inclusive o rei – se arrependeu amargamente de sua malícia.A revolução que mudou o destino daquelas 120 mil pessoas corruptas começou com apenas uma, e foi possível porque Jonas não transigiu. Sua mensagem era dura, difícil de ser assimilada por quem estava acomodado com o pecado, mas era exatamente o que o povo precisava ouvir. Você acha que a cidade em que você mora (Rio, São Paulo, Brasília, Vitória, interior) é um depositório de corrupção, violência, mentira, prostituição e perversidade? Acredita que ela mereça um juízo tão rigoroso quanto o de Gomorra e Sodoma? O que você faria, se tivesse o mesmo poder de Deus e visse um traficante esquartejando um jornalista com uma espada de samurai; ou um político aceitando “caixinha” para fazer vista grossa a um esquema de corrupção; ou um policial negociando drogas com alguém que vai vendê-las na porta de uma escola?Pela sua graça, manifestada em Jesus Cristo, Deus fez uma opção: a de usar seus filhos para sinalizar os valores do Reino e resgatar a dignidade. Mas isso só é possível quando estes com os quais ele conta possuem um compromisso autêntico com a justiça do Senhor e não se omitem. Mesmo que sejam em minoria, são capazes de fazer uma revolução de proporções incalculáveis. Se ver sua cidade se degradar até a destruição incomoda, lembre-se de que você é a referência de Deus no meio do povo.


Carlos Alberto Bezerra Jré médico e pastor da Comunidade da Graça.
Obs.: Tenho postado artigos de alguns irmãos aqui em meu blog, devido ao pouco tempo que estou encontrando para escrever. No mais agradeço pelos comentários e pela atenção de todos que aqui meditam. Que nosso Deus e Salvador Jesus Cristo abençoe a todos nós.Amém.