10 janeiro 2008

A convicção de pecado

O evangelicalismo contemporâneo brasileiro praticamente fez desaparecer a necessidade do pecador se convencer de seu real estado diante de um Deus santo. O tema desapareceu em nossos cultos, e isso pode ser constatado a cada domingo em nossas reuniões evangélicas. As razões que são apresentadas para o pecador se converter passam pelo fim do sofrimento, a conquista da prosperidade econômica, a obtenção de um emprego melhor ou a salvação do casamento – e, até mesmo, a possibilidade de arrumar um novo. Nada se fala da necessidade do homem, sem Deus, reconhecer que é um pecador que vive em inimizade com o Criador, e que, por isso, precisa urgentemente de reconciliação com Deus através da mediação única e exclusiva de Jesus Cristo.


O profeta João Batista, que hoje seria considerado um pregador “muito duro”, disse que sobre todo aquele que rejeitasse o Filho de Deus, a ira do Senhor permaneceria. (João 3.36). Interessante neste texto é o emprego do verbo permanecer (do grego menei). Ou seja, quem rejeitasse Jesus Cristo continuaria sendo alvo da ira de Deus. João reconhece que o homem naturalmente já está debaixo da ira de Deus. Ela é uma realidade presente e não futura, e o homem sem Cristo permanece com esta ira sobre si.


Assim é o verdadeiro estado do homem. Ele é, por natureza, inimigo de Deus. E é dessa inimizade que o pecador precisa se convencer. Sendo inimigo do Senhor, e, portanto, alvo de sua ira, o homem corre um grande perigo de, a qualquer momento, partir deste mundo sem estar em paz com Deus e ter que enfrentá-lo face a face. Ou seja, terá que, como miserável pecador que é, morto em delitos e pecados, enfrentar um Deus santo e justo.O que precisamso resgatar em nossas igrejas é o conceito de que o homem é um pecador miserável e precisa reconciliar-se com o Senhor. Esta, sim, é sua maior necessidade em vida. Os puritanos nos séculos 17 e 18 tratavam muito seriamente a questão da convicção de pecado. Entendiam que era a porta de entrada para o céu. Acreditavam piamente que um homem que não experimentasse a certeza de que era um terrível pecador não teria do que se arrepender e, assim, jamais chegaria à conclusão de que precisava de Jesus Cristo como seu salvador pessoal. Por esta razão pregavam ardentemente sobre o pecado, a ira de Deus e o estado do homem sem Cristo, na esperança que Espírito Santo tocasse nos corações endurecidos.


O método dos puritanos na evangelização era interessante. Quando pregavam, desejavam ver a necessidade confrontar-se com a impossibilidade. Ou seja, insistiam na necessidade do pecador se arrepender, ao mesmo tempo que também insistiam na impossibilidade do pecador alcançar tal arrependimento por si mesmo. Assim, quando o pecador percebia o abismo em que estava e que o arrependimento era impossível de ser promovido por qualquer esforço próprio, ele se desesperava. Era o momento então de falar da boa notícia – o perdão que está em Cristo Jesus. E da plena e real reconciliação que o Salvador promove entre o pecador e Deus. Os puritanos jamais evangelizavam sem abordar a questão do pecado.


A convicção de pecado é um elemento ausente na pregação contemporânea. Mas não nos esqueçamos que ela que permitiu a Isaías ser comissionado para o ministério profético. “Ai de mim! Sou hojmem de lábios impuros”, foi seu brado diante do Deus santo. Foi a convicção de pecado que fez estremecer a alma de Martinho Lutero, lançando-o em profunda angústia. Sua pergunta fundamental era: “Como posso encontrar o Deus misericordioso sendo eu tão pecador?”


Foi a convicção de pecado que lançou John Bunyan, autor de O peregrino, nas profundezas do desespero a ponto de invejar a tranqüilidade dos cisnes que povoavam as lagoas da cidade em que morava. Foi tal sentimento também que despertou a comunidade de Enfield, em Connecticut, nos Estados Unidos, a viver uma vida mais santa e consagrada a Deus. Tudo a partir do célebre sermão Pecadores nas mãos de um Deus irado, proferido pelo pastor Jonathan Edwards em 8 de julho de 1741.


Não nos esqueçamos de que uma das declarações mais fundamentais do Novo Testamento é “arrependei-vos e crede no Evangelho” (Marcos 1.15). Ora, só posso crer no Evangelho se primeiro arrepender-me, pois é o arrependimento de meus pecados que me levará a buscar Jesus Cristo, que é a única solução para a minha salvação.


Sejamos, portanto, portadores da boa notícia sem, contudo, abrir mão da má notícia de que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. E a boa notícia é que o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo, nosso Senhor, conforme Romanos 6:23. Uma verdade não pode omitir outra; assim, teremos em nossas igrejas cada vez mais pessoas realmente convertidas, regeneradas pelo sangue do Senhor Jesus. Somente assim faremos diminuir aceleradamente o número de crentes interesseiros e barganhistas que só querem as bênçãos do Mestre, e não o Mestre.


Idauro Camposé teólogo, professor de educação religiosa e pastor da União das Igrejas Evangélicas.

31 dezembro 2007

Feliz 2008!!!

"Que a fé e a esperança num futuro melhor sejam revividas a cada dia no seu coração."

Um abraço!!!
Eduardo Neves.

30 dezembro 2007

Cristo morto ou ressuscitado?

Para muitos, a cruz passou a ser o centro da história. Sem ela, nada na vida tem significado. Seu simbolismo remete diretamente à salvação.

A salvação de todos, através do trabalho missionário e evangelístico, tem sido o objetivo de muitas denominações evangélicas. A abordagem do trabalho na Igreja tem sido, em sua grande maioria, tirar o pecador do lamaçal do pecado. Depois de convertido, o novo crente logo aprende que também deve se engajar nessa tarefa árdua de levar outros a Cristo, para que, depois de convertidos, possam estes também levar outros aos pés do Senhor, e assim por diante.

Nada de errado há, claro, com a necessidade da pregação do Evangelho e do trabalho missionário. A questão é que, quando focamos apenas a cruz e tão somente a evangelização como obra central da Igreja, deixamos de lado o que é mais importante – a vitória de Jesus Cristo pela ressurreição. Um Cristo morto é como qualquer outro líder religioso também morto, mas não ressuscitado. Um Cristo morto é apenas ignomínia, desprezo, maldição – ele se fez maldição por nós.Se enfatizarmos apenas a cruz e a salvação, corremos o grave risco de pregarmos um evangelho antropocêntrico, que só interessa ao homem. Seria como focalizar o presente ao liberar o homem de suas angústias materiais ou apenas alimentar o desejo humano de evitar o inferno.

A ressurreição é tão importante que Cristo é declarado Filho de Deus por meio dela. A cruz foi importante; sem ela, não haveria perdão de pecados. Mas o que dá significado ao Evangelho é a obra completa que se realizou pela ressurreição. Portanto, a pedra removida do sepulcro é o centro da história humana, e não a cruz. Sem a ressurreição, nossa fé seria vã, disse o apóstolo Paulo, que também mostrou que assim como fomos crucificados com Cristo, devemos ser com ele ressuscitados em novidade de vida.Ser salvo requer apenas o exercício do arrependimento e da fé. Mas prosseguir para assumir uma nova vida, uma vida ressuscitada, requer abnegação incondicional a cada momento. Isso é centenas de vezes indesejável – afinal, quem desejaria abandonar sua vontade, suas aspirações, seus bens e direitos, e diariamente entregá-los no altar de Jesus, conforme Romanos 12.1?

O Evangelho da cruz é mais fácil. Mas Jesus não ficou no túmulo. Será que ainda vale a pena continuar no túmulo de nossa vida?

Lourenço Stelio Regaé teologo, educador e escritor.

12 dezembro 2007

A contemplação do belo

Vivemos numa sociedade tecnológica que valoriza mais a ação e a funcionalidade do que a contemplação. Ao reverter estes valores, terminamos por exaltar a produtividade, dando ao homem a prerrogativa de ser ele o agente que fabrica a realidade a partir das ferramentas tecnológicas que possui. O meio e o fim são invertidos e a vida passa a ser medida pelo sucesso, desempenho e eficiência. Somos constantemente desafiados a ter vida, ministério, trabalho, família, lazer ou sexo com propósito – tudo muito pragmático e funcional. A quantidade de livros com as famosas receitas de “como” enchem nossas livrarias: “Como ter uma família saudável”,Como obter o melhor de Deus” ou “Como desenvolver um ministério eficaz”, reduzindo a vida a esquemas produtivos. É a nova mentalidade tecnológica transformando as complexidades humanas e espirituais em pequenos defeitos que podem ser consertados com o uso correto de um bom manual e das ferramentas que ele sugere. A felicidade e a realização estão no resultado.


A beleza está no produto final, e não no que é simplesmente belo. Uma das grandes perdas que temos sofrido com a alta tecnologia da sociedade pós-moderna e a obsessão pelo sucesso é a da percepção da beleza. Valorizamos cada vez mais a eficiência e cada vez menos a arte. Preferimos o fast food, e não mais saborear uma boa refeição. Substituímos o real e o natural pelo virtual e pelo plástico. Vivemos como um turista que leva nas viagens suas câmeras e filmadoras digitais para não perder tempo contemplando a beleza da arte ou da criação. A aparência nos impressiona mais do que a realidade. Dentro de nossas igrejas, o efeito da mentalidade tecnológica é sutil e devastador. Imaginamos que se temos uma boa liturgia, boa música e coreografia, teremos um bom louvor e uma boa adoração. Se temos um programa eficiente, teremos um bom e fiel ministério. Se temos um bom sistema de integração de visitantes, teremos uma boa comunhão. A tecnologia nos afasta do belo e o reduz a um programa que nos ilude e nos leva a pensar que a beleza está na eficiência do produto e não mais no olhar, no gesto de fé e coragem, na criatividade ou num simples sorriso. A incapacidade de perceber a beleza é um dos sinais mais evidentes de que temos perdido nossa relação pessoal com Deus. Falamos mais sobre a utilidade da obra da cruz e menos da beleza do crucificado. Somos mais atraídos pela funcionalidade da igreja e por suas atividades do que pela beleza da comunhão de amor e amizade entre os santos. Somos cada vez mais seduzidos pelos encantos de uma vida bem sucedida do que pela beleza da santidade. No entanto, a alma humana anseia pelo que é belo. Anseia pela harmonia da criação, pela nobreza da vida em comunhão, pela pureza do amor, pela glória da ressurreição, pelas realidades não visíveis. É a beleza que sustenta o coração em meio à dor e ao desespero. Santo Agostinho fez esta pergunta: “Podemos amar outra coisa senão a beleza?” Quando olhamos para a lista que o apóstolo Paulo nos apresenta das obras da carne, vemos ali um conjunto assimétrico, sem harmonia e beleza. São expressões que descrevem as formas mais bizarras de egoísmo, exploração, mutilação e destruição. Mas quando ele abre a lista do fruto do Espírito, vemos uma relação simétrica, harmoniosa e bela que nos atrai para Deus e o próximo. As “bem aventuranças” também são belas pela sua harmonia. A cultura moderna valoriza mais as obras da carne como expressões de realização e liberdade, do que o fruto do Espírito. Isso revela o grau de alienação em que vivemos. O livro do Cântico dos Cânticos é um convite à contemplação da beleza e da harmonia: “Como você é linda, minha querida! Ah, como é linda!”; ou “Como você é belo, meu amado! Ah, como é encantador!” A beleza contemplada em Cantares não é apenas estética. Ali, o belo é a harmonia de tudo o que existe dentro e fora, e de tudo o que envolve Deus e sua criação. O belo existe para ser contemplado. Não é sua utilidade ou propósito que nos atrai, mas sua beleza e harmonia. Ele pode até ser útil, mas não é isso que nos fascina. O belo não precisa ser útil para ser belo. O salmista nos convida para “adorar a Deus na beleza da sua santidade”. O ser Santo de Deus nos atrai porque revela a harmonia de todos os seus atributos (amor, justiça, misericórdia, bondade, poder etc) e a harmonia em toda a sua criação – “Viu Deus que tudo era muito bom”, conforme o Gênesis. Santo Agostinho em suas confissões, diz:

“Que amo eu, quando vos amo? Não amo a formosura corporal, nem a glória temporal, nem a claridade da luz, tão meiga destes meus olhos, nem as doces melodias das canções de todo o gênero, nem o suave cheiro das flores, dos perfumes ou dos aromas, nem o maná ou o mel, nem os membros tão flexíveis aos abraços da carne. Nada disso amo, quando amo meu Deus. E contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço, quando amo meu Deus; brilha para a minha alma uma luz que nenhum espaço contém, onde ressoa uma voz que o tempo não arrebata, onde se exala um perfume que o vento não esparge, onde se saboreia uma comida que a sofreguidão não diminui, onde se sente um contato que a saciedade não desfaz. Eis o que amo, quando amo meu Deus”.


Para Agostinho, seu encontro com Deus trouxe de volta a harmonia e a beleza. Para ele, amar a Deus envolve, entre outras coisas, romper com o caos, recuperar os sentidos, olhar em volta e perceber a graça e a bondade de Deus na luz do sol, na escuridão da noite, na ingenuidade infantil e nas tribulações da vida. Precisamos recuperar a contemplação e o belo numa cultura pragmática e fortemente determinada pelas forças do mercado. Precisamos resistir à pressão pela produtividade. Precisamos voltar a entrar na igreja simplesmente para adorar a Deus na beleza de sua santidade e reconhecer: “Que magníficas são, Senhor, as tuas obras! Quão profundos são os teus pensamentos!” Precisamos voltar a reconhecer a harmonia e a grandeza da criação e da obra de Cristo e celebrar a beleza da presença de Deus na vida e na história, para que a oração recupere seu significado.

Ricardo Barbosa de Souzaé conferencista e pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasilia

29 novembro 2007

O Holocausto do século 16

Com o advento do Cristianismo, o mundo – mais precisamente, o velho continente europeu – passou por muitas crises de ordem política e social, mas nada se compara ao conflito protagonizado por católicos e protestantes na França, no século 16, em decorrência de divergências entre a nobreza, o clero e a burguesia, agravadas pelo crescimento das correntes protestantes. Seguidores remanescentes de Martinho Lutero (1483-1546), que para contestar os abusos eclesiásticos fixou suas idéias de renovação na porta de uma igreja na Alemanha, iniciando assim a Reforma protestante; e de João Calvino (1509-1564), que fundou a Igreja Reformada e inseriu uma nova maneira de pensar a relação de Deus com a humanidade, foram os personagens de uma revolução religiosa que abalou as estruturas da Igreja Católica. Apesar de divergir do luteranismo em alguns aspectos, o calvinismo teve grande influência para o fortalecimento do pensamento reformista.

Antes da Reforma protestante, o catolicismo – imposto pela força coercitiva – era a religião oficial da Europa. E como autoridade máxima da Igreja Católica, as decisões do papa tinham tanto valor quanto as Escrituras Sagradas. Contudo, uma série de práticas que não condiziam com a atitude dos chamados “representantes de Deus”, como a riqueza material do alto clero, o uso indevido do dinheiro das ofertas e a prática da simonia – comércio de materiais sagrados e venda de cargos eclesiásticos – estava levando o povo à miséria e revoltando as camadas mais baixas da população. Esse descontentamento foi um dos motivos do surgimento de pensamentos reformistas baseados, principalmente, na doutrina de salvação somente pela fé e não pelas práticas cristãs. Por sua vez, o catolicismo ensinava que para alcançar a salvação era necessária a fé e a realização de boas obras estabelecidas pela igreja. Além do mais, os reformistas também julgavam inúteis o trabalho exercido pelos mediadores entre Deus e os fiéis.

Enock da Silva Pessoa, professor do departamento de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Acre, destaca a importância da ação promovida pelos reformistas: “Um grande número de intelectuais defende a Reforma protestante do século 16 como um marco histórico relevante na luta pelas liberdades democráticas, individuais e coletivas, e o luteranismo alcançou os objetivos de libertação social, política e religiosa, diminuindo a dominação política da Igreja sobre o Estado”, aponta.

Abusos – Os abusos do clero descontentavam também o rei da Inglaterra, Henrique VIII, que rompeu definitivamente as relações com o papa Clemente VII e promoveu a Reforma protestante em seu país. Assim, surgiu a Igreja Anglicana, da qual o monarca tornou-se chefe supremo, exigindo obediência dos súditos sob a pena de morte. Ainda, em solo inglês, fincaram-se os alicerces da Igreja Presbiteriana, também em decorrência de questões político-sociais.

Diante desse quadro, a Igreja Católica viu-se obrigada a tomar providências para manter a ordem e restabelecer seu poder nos principais centros europeus. Se a Reforma teve maior adesão em países com a Alemanha e a Inglaterra, na França – onde o absolutismo era mais radical – a entrada dos reformistas não foi nem um pouco pacífica, o que agravou ainda mais a crise entre as oposições religiosas. Em decorrência desse conflito, surgiram dois partidos políticos, cada um com interesses próprios: do lado dos católicos, o Papista; e, em favor dos protestantes, o Huguenote, expressão depreciativa atribuída pelos católicos franceses. Seguidores de João Calvino – um segmento formado por artesãos, comerciantes e nobres –, eles viviam no oeste e sudoeste francês sob constante ameaça, empenhados em disputas religiosas que se alastraram por várias cidades e culminou na madrugada de 24 de agosto de 1572, quando milhares de calvinistas foram massacrados, num dos episódios mais sangrentos que a História registra. Pegos de surpresa com ataques planejados pela família real e mediante o beneplácito da Igreja Católica, os huguenotes nada puderam fazer além de sucumbir sob as lanças e espadas do exército francês.

Do alto das torres sinos repicavam, nas ruas formavam-se procissões alegradas por cânticos de louvor em agradecimento a Deus pelos extermínio dos “hereges” e pela liquidação dos “malditos”. Em Roma, os sinos também soaram, denotando o contentamento do papa pela vitória dos católicos e da Coroa francesa sobre a corrente protestante, vista como uma peste que colocava em risco a liderança exercida pelo conclave. Até uma moeda comemorativa foi cunhada, além do pontífice encarregar o artista Giorgio Vasari da pintura de um mural celebrando o ocorrido. Por ter ocorrido em 24 de agosto, dia dedicado ao santo católico Bartolomeu, o episódio ficou conhecido como Noite de São Bartolomeu.

Semente – “A Noite de São Bartolomeu evidenciou a rivalidade política dos partidos que usavam a religião como pano de fundo para encobrir outros interesses”, comenta Arthur Prado Netto, pesquisador da Oficina Cinema-História, núcleo ligado ao departamento de História da Universidade Federal da Bahia. O estopim para a carnificina teve como precedente uma série de ligações envolvendo membros da nobreza. A França vivia sob o reinado do jovem Carlos IX, mas quem dava as ordens era sua mãe – Catarina de Médicis – que julgava o filho incapaz de tomar decisões importantes. Para acalmar as hostilidades entre católicos e protestantes, a solução encontrada foi uma aliança, o casamento de sua filha, Margarida de Valois, com o protestante Henri de Navarra, um aspirante ao trono.

O imbróglio começou quando um agente católico tentou assassinar o líder huguenote Gaspard de Coligny a mando da rainha-mãe, por receio da influência que ele exercia sobre o rei. Apesar da tentativa frustrada, o episódio enfureceu os protestantes. Convencido pelos aliados de que, durante a festa de casamento, centenas de calvinistas estariam em Paris tramando uma conspiração para tirar a coroa e a vida do monarca, Carlos IX não teve dúvidas e autorizou o massacre em massa dos supostos conspiradores, inclusive de seu líder. Com a bênção e a absolvição do crime por parte do papa Gregório XIII aos católicos, os ataques continuaram, atingindo as principais cidades do país. As águas dos rios ficaram infestadas por cadáveres insepultos, e o mau cheiro se espalhou pela capital francesa por vários meses. Pela estimativa, quase 100 mil huguenotes foram mortos durante os conflitos. Historicamente, a Noite de São Bartolomeu ficou conhecida como a mais terrível entre as ações diabólicas de todos os tempos. Os sobreviventes ao massacre foram obrigados a largar os pertences e fugir, espalhando-se pela Europa.

Em nome da França, então chamada de a “filha predileta da Igreja”, a rainha jurou que, a partir daquele dia, nenhum protestante nasceria naquele solo. A “peste”, segundo a ótica católica, havia sido exterminada – contudo, o episódio foi muito mais além. A partir dali, a teologia reformada espalhou-se pelo mundo. O episódio acabou tendo reflexos diretos sobre o Brasil. Fugindo da França que ardia em perseguições, o primeiro grupo de protestantes a desembarcar em terras brasileiras foi trazido pelo aventureiro Nicolas Durant de Villegagnon em 1557, com o objetivo de fundar uma colônia para os perseguidos. Dois anos mais tarde, aportou por aqui um grupo de apóstolos com missão evangelística, formado na maioria por protestantes. Era a França Antártica, empreitada que acabou não dando certo mas entrou para a História como a primeira tentativa efetiva de evangelização no Brasil, um passo decisivo para que o país chegasse ao século 21 como a segunda maior nação evangélica do mundo.

José Donizetti Morbidelli
Jornalista e assessor de comunicação e marketing

04 novembro 2007

Os justos e a cidade

“Aí o Senhor disse a Abraão: ‘Há terríveis acusações contra Sodoma e Gomorra, e o pecado dos seus moradores é muito grave’. Abraão disse: ‘Não fiques zangado, Senhor, pois esta é a última vez que vou falar. E se houver ali só dez pessoas direitas?’ ‘Por causa desses dez, não destruirei a cidade’, Deus respondeu.” A história está narrada no capítulo 18 do livro de Gênesis. Estava decidido: se constatasse que, de fato, as cidades de Sodoma e Gomorra eram pura corrupção em todos os sentidos, como parecia, Deus não pensaria duas vezes e as destruiria. Não era possível ao Senhor ver na terra que ele havia criado um povo tão cheio de malícia, mentira e perversidade. Era preciso colocar um ponto final naquela situação, que era uma agressão constante à santidade de Deus. E quem conhecia a região, como Abraão, sabia que dificilmente aquelas duas cidades teriam qualquer chance de escapar da fúria divina. Ele sofria só de pensar na destruição daqueles povos, mas não tinha jeito. Ou tinha?Talvez, sim. Abraão lembrou-se de um dos atributos que Deus mais prezava: a justiça. Se por amor a essa justiça, o Senhor estava próximo de acabar com Sodoma e Gomorra, era possível que o mesmo zelo divino fosse a salvação para aquelas cidades. Então, o patriarca do povo hebreu começa a interpelar Deus. Com uma ousadia que beirava o abuso, desafiava os limites do Senhor – será que as vidas de cinqüenta pessoas retas de coração não valeriam mais do que a dos milhares de corruptos? Ou quarenta? Trinta? Ou mesmo dez? A cada interpelação de Abraão, Deus respondia com uma afirmação de sua misericórdia e seu amor, sempre disposto a oferecer alguma chance para o ser humano reencontrar a dignidade com a qual fora criado, e de que abrira mão.Há dois aspectos dessa passagem que merecem reflexão. O primeiro deles tem a ver com a atitude divina diante de um cenário de degradação de valores e princípios: por mais caótico que fosse o estado espiritual e ético da população de Sodoma e Gomorra, os retos de coração – mesmo que fossem uma minoria – seriam a referência de Deus. Ao garantir a Abraão que não destruiria aquelas cidades se encontrasse, pelo menos, dez pessoas justas, o Senhor estava dizendo: “Minha decisão não será tomada em função dos corruptos. As ações deles me enojam, e serão condenados por elas, seja aqui ou no dia do grande Julgamento. Mas aqueles que praticam atos de justiça em meio à corrupção estão sendo agentes de meu Reino. Para mim, este é um motivo mais do que suficiente para poupar uma cidade inteira.”Em segundo lugar, Deus revelou, em seu rápido diálogo com seu servo Abraão, ser mais otimista em relação a este mundo do que nós mesmos somos. É possível que Abraão não esperasse que o Senhor fosse tão longe – talvez parasse nas quarenta ou nas trinta pessoas direitas. Dali para a frente, seria só condenação. No entanto, Deus foi ultrapassando os limites de Abraão, que parou nos dez justos muito provavelmente porque, para seu senso humano e incompleto de justiça, esta era uma quantidade razoável, a partir da qual seria mais do que natural ver a ira divina cair sobre aqueles povos.No entanto, o Senhor estava declarando sua confiança na supremacia da justiça sobre a corrupção e o pecado. Sob a ótica celestial, a presença de cinqüenta, quarenta ou mesmo dez pessoas comprometidas com os valores do Reino já seria suficiente para transformar aquelas cidades e resgatar a dignidade original das pessoas que viviam nelas. A maldade pode contagiar um povo e levar milhões de pessoas à ruína – mas o amor e a justiça de Deus são capazes de produzir uma revolução quando sinalizados nas vidas daqueles que o temem e servem, mesmo que sejam poucos. Mesmo que seja um.Prova disto é Nínive, uma cidade próspera, com mais de 120 mil habitantes – uma metrópole para a época em que viveu o profeta Jonas. Sendo ex-capital da Assíria e um grande centro de comércio, localizado à margem do Rio Tigre e no meio do caminho entre o Oriente e o Ocidente (portanto, politicamente influente), caiu em dois erros fatais: tolerou todo tipo de corrupção e desprezou o princípio divino da justiça. Também estava condenada a se transformar em cinzas, tal como Sodoma e Gomorra. Nem mesmo havia ali cinqüenta, trinta ou dez justos cuja presença fosse capaz de poupá-la. Mas bastou que um homem de coração reto começasse a denunciar os pecados da cidade, e logo toda a população – inclusive o rei – se arrependeu amargamente de sua malícia.A revolução que mudou o destino daquelas 120 mil pessoas corruptas começou com apenas uma, e foi possível porque Jonas não transigiu. Sua mensagem era dura, difícil de ser assimilada por quem estava acomodado com o pecado, mas era exatamente o que o povo precisava ouvir. Você acha que a cidade em que você mora (Rio, São Paulo, Brasília, Vitória, interior) é um depositório de corrupção, violência, mentira, prostituição e perversidade? Acredita que ela mereça um juízo tão rigoroso quanto o de Gomorra e Sodoma? O que você faria, se tivesse o mesmo poder de Deus e visse um traficante esquartejando um jornalista com uma espada de samurai; ou um político aceitando “caixinha” para fazer vista grossa a um esquema de corrupção; ou um policial negociando drogas com alguém que vai vendê-las na porta de uma escola?Pela sua graça, manifestada em Jesus Cristo, Deus fez uma opção: a de usar seus filhos para sinalizar os valores do Reino e resgatar a dignidade. Mas isso só é possível quando estes com os quais ele conta possuem um compromisso autêntico com a justiça do Senhor e não se omitem. Mesmo que sejam em minoria, são capazes de fazer uma revolução de proporções incalculáveis. Se ver sua cidade se degradar até a destruição incomoda, lembre-se de que você é a referência de Deus no meio do povo.


Carlos Alberto Bezerra Jré médico e pastor da Comunidade da Graça.
Obs.: Tenho postado artigos de alguns irmãos aqui em meu blog, devido ao pouco tempo que estou encontrando para escrever. No mais agradeço pelos comentários e pela atenção de todos que aqui meditam. Que nosso Deus e Salvador Jesus Cristo abençoe a todos nós.Amém.

19 outubro 2007

Mistérios do Apocalipse

Guerras, catástrofes naturais, terror, indiferença, profetas e líderes para todos os gostos e fins, fome, crises econômicas, epidemias sem cura, fanatismo religioso... Quem mantém-se minimamente informado sobre o que acontece no mundo de hoje não escapa da dura realidade à sua volta. Porém, para muita gente, mais do que tragédias isoladas, os acontecimentos que costumam ocupar as manchetes significam algo muito maior: são sinais do fim dos tempos e da volta de Cristo, eventos profetizados na Bíblia. A uma certa altura, o noticiário pode até se confundir com palavras de Cristo registradas no capítulo 24 do evangelho segundo Mateus ou ainda com o conteúdo dos livros bíblicos de Daniel ou Apocalipse. Todos estes escritos sagrados apontam para um panorama de instabilidade, crises, tensões e catástrofes que precederiam o desfecho da História.Apesar dos chamados “sinais dos tempos” poderem ser verificados, em maior ou menor intensidade, em diversas épocas, nunca houve a soma de tantos deles como neste último século.


O desenvolvimento da ciência, por exemplo, é apontado na Bíblia como parte do panorama do fim. Pois nos últimos 30 anos, o conhecimento e a tecnologia deram um salto que supera, em muito, todo o conhecimento acumulado pelo homem até então. A Bíblia fala também em conflitos – e nenhum outro século foi tão violento quanto o 20, que além de legar ao mundo as duas Guerras Mundiais, assistiu a milhares de outros confrontos. Foi um tempo marcado por genocídios, como o que vitimou os armênios, massacrados pelos turcos em 1915, e o feroz embate entre tutsis e hutus em Ruanda, há dez anos. Ao todo, 200 milhões de pessoas morreram nas guerras e seus desdobramentos do século 20.

De acordo com as Escrituras, os tempos do fim seriam caracterizados, também, por pestes de grandes proporções. Identificada nos anos 1980, a Aids já matou, em todo o mundo, cerca de 20 milhões de pessoas. E estima-se que haja, no total, mais de 40 milhões infectados. A fome, outro indício apocalíptico do fim, permanece como ameaça em pleno século 21. Em todo o mundo, quase dois bilhões de pessoas – um terço da humanidade – sofrem com severas deficiências alimentares. Além das desigualdades sociais entre os povos, colabora para a carência na produção de comida as prolongadas secas e devastações climáticas que, periodicamente, afetam as regiões produtivas – e jamais, como nos últimos 100 anos, tantas áreas férteis foram destruídas pela desertificação. O clima anda mudando, e muito. No último século, a Terra se aqueceu como nunca dantes. Em média, a temperatura global subiu meio grau centígrado, o suficiente para desencadear a extinção de inúmeras espécies animais e alterar substancialmente a temperatura dos oceanos.

É claro que os autores bíblicos não possuíam elementos para descrever com detalhes eventos como o efeito estufa e o degelo das calotas polares, mas grande número de estudiosos, hoje, apontam tais danos como ameaça real à vida na Terra – ou seja, profetas como Daniel e João, milhares de anos atrás, sabiam muito bem do que estavam falando. A somatória de toda essa turbulência faz com que o Apocalipse seja o assunto da moda. Em nenhuma outra época o tema despertou tanta polêmica ou trouxe tamanha ansiedade. Os números deixam isso bem claro: o site de pesquisas Google registra nada menos que 110 mil páginas sobre o assunto – só em português. Uma pesquisa recente da revista Time e da rede de televisão CNN mostrou que 59% dos norte-americanos, ou 170 milhões de pessoas, acreditam literalmente no fim dos tempos e restauração de todas as coisas como descritos no último livro da Bíblia cristã, vivendo na expectativa da iminente volta de Cristo.É também na terra de Tio Sam que surge uma nova mania editorial que vem fazendo sucesso entre os cristãos. Escrita pelo pastor batista Tim LaHaye e pelo jornalista Jerry B. Jenkins, os 12 livros da série Deixados para trás e suas variantes voltadas para o público infanto-juvenil e estudo bíblico venderam mais de 50 milhões de cópias até agora. Os dois primeiros volumes, inclusive, já chegaram à telona, transformando-se em grandes produções do cinema.



No Brasil, não é diferente. Lançada pela editora United Press, a série, que na realidade é uma ficção romanceada dos últimos dias, quando o Anticristo – apresentado como um eficiente e carismático presidente da ONU – surge em meio ao misterioso desaparecimento de crentes em todo o planeta para causar a Grande Tribulação prevista na Bíblia, teve seu último volume, O glorioso aparecimento –O fim das eras, lançado há pouco. A expectativa é de que as vendas ultrapassem a de seus predecessores, que por sua vez, esgotaram diversas edições. Não é para menos que LaHaye foi apontado pelo importante periódico Evangelical studies bulletin como o líder cristão mais influente dos últimos 25 anos.O fenômeno é tão grande que já está sendo chamado, jocosamente, de “indústria do juízo final”. “De fato, este é o assunto da moda e voltou com tudo depois dos atentados de 11 de setembro de 2001”, explica o sociólogo Ricardo Mariano, professor da PUC de Porto Alegre (RS) e especialista na análise do segmento religioso. Para ele, o contexto político mundial, em que a religião surge novamente como fonte de disputas e controvérsias, é o grande incentivador do interesse pelo tema. Um interesse que muitas igrejas transferem para o púlpito ou para seus grupos de evangelização e estudo. Mariano estima em 1 milhão, apenas no Brasil, o número de fiéis de denominações cuja mensagem se baseia na interpretação de profecias sobre o fim do mundo.É a escatologia – ou estudo dos acontecimentos do fim – em alta.


Ao pé da letra – É verdade que já houve diversas ocasiões em que os crentes olharam para o alto no que acreditavam ser a iminência do fim. Desde a Roma do tempo dos apóstolos, quando o imperador Nero perseguiu impiedosamente os cristãos, passando pela peste negra que dizimou populações inteiras na Europa medieval até exemplos mais recentes, como o do nazista Adolf Hitler, que chegou a ser considerado por muitos como o Anticristo, muitos fatos foram vistos pelos cristãos de então como indício decisivo do Apocalipse. Só que agora, pela primeira vez em 2 mil anos, é possível interpretar quase ao pé da letra várias passagens bíblicas. Para muita gente, antes de o Messias voltar, haverá uma restauração de Israel. Diversas correntes evangélicas chegam a comparar o povo judeu a uma espécie de “relógio de Deus”, cujo destino desencadeará a sorte do mundo. A própria parábola da figueira madura, contada por Jesus a seus discípulos, é tratada como referência a Israel. Pois bem, para vários grupos que defendem a tese de que vivemos, hoje, os últimos dias, a formação do Estado judeu, em 1948, foi o cumprimento dessa profecia, restando agora apenas a restauração espiritual.A reconquista do lado oriental da cidade de Jerusalém em 1967, na Guerra dos Seis Dias entre israelenses e jordanianos, foi outro marco importante desse quebra-cabeças. Afinal, é aquela parte da cidade que abriga o local onde, segundo a profecia, o Templo deverá ser reconstruído. Mesmo com a Mesquita de Omar, uma das mais sagradas dos muçulmanos, ocupando a área, ativistas judeus volta e meia tentam colocar lá uma pedra fundamental e são duramente reprimidos pela polícia.


Nos EUA, a mesma direita cristã que foi fundamental para a reeleição do presidente George W.Bush crê tanto na questão que apóia as mais agressivas políticas de Israel frente aos palestinos e demais povos árabes. Alguns, incitados pelos ataques terroristas a Nova York e Washington, chegam a defender a demolição da majestosa mesquita da cúpula dourada. Aliás, após os atentados de setembro de 2001, uma bizarra notícia deixou claro até que ponto vai a questão para algumas pessoas. Criadores de gado evangélicos montaram um fundo para patrocinar pesquisas genéticas que permitam a criação de um bezerro totalmente vermelho, cujo sacrifício seria necessário, segundo alguns rabinos ortodoxos, para Deus permitir a reconstrução do templo.“Estes últimos 50 anos são na realidade uma linha ao longo da qual a Igreja tem andado nos últimos dois milênios”, diz o professor Carlos Osvaldo Pinto, reitor do Seminário Bíblico Palavra da Vida em Atibaia (SP). Ele explica que, para os escritores do Novo Testamento, como os apóstolos Pedro, Paulo e João, a época em que viviam já era o início do tempo do fim; um período que se iniciou com a ressurreição de Jesus. Ultimamente, tal processo tornou-se mais agudo, até para que se cumpram as profecias. “Sempre que a Igreja viveu nessa consciência, esteve melhor, pois permitiu que tal urgência a levasse a vivenciar os ensinamentos e a ética cristã”, analisa.O fato é que a escatologia mexe com a vida de muita gente. Apesar de não existirem pesquisas sobre o assunto, estima-se que é grande o número de pessoas que crêem mesmo que o fim está próximo – uma fé que é normal para quase todos os evangélicos brasileiros. É o caso do casal Gilmar e Denise de Andrade. Membros da Assembléia de Deus em São Paulo, eles acreditam que as profecias bíblicas são o mais seguro guia que o homem pode ter em sua vida. Denise, hoje com 38 anos, lembra que sua conversão se deu graças às histórias sobre os eventos do Apocalipse contadas em um disco. “Desde pequena fui criada na igreja, mas acabei me tornando uma adolescente sem muito temor a Deus, daquelas que iam nos cultos só para encontrar as amigas”, recorda. Tudo mudou quando ouviu o antigo LP A última trombeta, que dramatiza os eventos narrados no último livro da Bíblia. “Aquilo me marcou profundamente. As descrições eram tenebrosas, especialmente dos eventos da Grande Tribulação”. Já na opinião de Gilmar, 40, muitos ainda não perceberam o que está realmente acontecendo. “Estamos às portas do retorno de Cristo e os crentes não podem ser omissos; devem anunciar isso”, exorta ele, que já falou muito sobre o assunto com colegas na empresa de transporte em que trabalha. Ambos também destacam o desenvolvimento tecnológico que o mundo experimentou no último século como um dos mais importantes sinais dos tempos. “Coisas que antes só víamos em filmes hoje são realidade, como a identificação pessoal através da íris”, destaca Denise. “O desenvolvimento tecnológico será essencial para que o Anticristo possa controlar o mundo”, emenda o marido, convicto.



Panorama catastrófico – Dúvidas desse tipo não são exclusividade dos evangélicos.



Periodicamente, surgem as mais diversas previsões e declarações sobre o assunto. Filmes sobre catástrofes e a destruição do planeta Terra são sucesso de público garantido. E não apenas aqueles com temática religiosa, como Deixados para trás, O Apocalipse e Megiddo. Os que falam de hecatombes como queda de asteróides ou terríveis mudanças climáticas, do tipo Impacto profundo e O dia depois de amanhã, são campeões de bilheteria. Este último trata de um tema bem contemporâneo: mudanças climáticas repentinas colocariam o planeta em colapso, com gigantescas inundações devastando países inteiros e o início de uma nova era glacial.Apesar de teoricamente possíveis, aos olhos da ciência tais catástrofes são mais produtos comerciais do que possibilidades plausíveis. “É claro que um asteróide pode se chocar com nosso planeta, mas as chances disso acontecer são muito pequenas. Desastres ecológicos ou mesmo guerras nucleares são mais possíveis quando se pensa em um final apocalíptico. Cientificamente, a previsão é de que o planeta seja destruído daqui a 1 bilhão de anos com a transformação do Sol em uma estrela vermelha, muito mais quente”, sustenta o físico Marcelo Gleiser, professor do Dartmouth College, nos Estados Unidos. Autor de O fim da Terra e do céu – O Apocalipse na ciência e na religião, lançado pela Companhia das Letras, ele afirma que mesmo antes do cristianismo o homem já lançava teorias sobre o fim dos tempos e o destino da humanidade. “A grande maioria das religiões tem teorias sobre o assunto. Crer ou não, muitas vezes, é uma questão de pura fé”, diz.Os estudiosos do tema calculam em mais de 40 as obras com viés apocalíptico na literatura judaico-cristã. Algumas com nomes sugestivos, como I Enoque e Apocalipse de Pedro. Apesar de conterem semelhanças com os textos bíblicos, a grande maioria delas é considerada tendenciosa ou mera falsificação (ver quadro à página XX). Do gênero, apenas os livros de Daniel e Apocalipse entraram no cânon sagrado. O problema, entretanto, parece ser mais quanto a possíveis interpretações do que quanto à validade dos dois escritos. “Elaborar complicadas posições escatológicas não era uma preocupação dos crentes no começo da Igreja – tanto, que os escritos dos apóstolos não defendem nenhuma das atuais posições. O mesmo se deu com os pais da Igreja nos primeiros séculos, que apenas aguardavam a volta de Cristo e falavam de seus sinais”, observa o professor Carlos Osvaldo Pinto. Segundo ele, a única crença unânime era o estabelecimento de um reino milenar de Cristo sobre a Terra. Isto, pelo menos até o século quarto, quando interpretações espirituais começaram a ganhar força. “As posições teológicas que temos hoje só foram desenvolvidas séculos mais tarde, ensina.“Quanto aos sinais e a preparação para a cena final, em geral, todos concordam, pois as palavras de Jesus são bem claras. As dificuldades começam quando se tenta entender o que vem em seguida”, opina Ingo Haake, editor da Chamada da Meia-Noite, editora especializada em publicações na área escatológica. No catálogo da empresa, destacam-se títulos sobre Israel, profecias bíblicas, temas do Apocalipse, além de farto material sobre correntes escatológicas. Basicamente, há três destas: os pós-milenistas defendem que a volta de Cristo só acontecerá após o período de mil anos – o Milênio narrado no Apocalipse – em que a Igreja e os judeus convertidos governarão a Terra. Já os amilenistas pregam que esse reino não é literal e que, quando Cristo voltar, estabelecerá a justiça eterna e transformará o planeta para sempre. Porém, a que encontra mais adeptos atualmente parece ser mesmo a dos pré-milenistas, para os quais Jesus voltará à Terra após a Grande Tribulação e reinará por mil anos em Jerusalém sobre todas as nações.De acordo com a Bíblia, durante este tempo o diabo será preso e não poderá tentar ninguém. É durante o Milênio, também, que o povo de Israel será restaurado. Porém, entre os pré-milenistas há algumas importantes nuances. Alguns defendem que a Igreja passará pela Grande Tribulação de sete anos descrita no Apocalipse. Outros garantem que o Arrebatamento – quando a Igreja será tomada da Terra – acontecerá no meio daquele tempo. Há ainda os que ensinam que o Arrebatamento ocorrerá antes da crise. “A perspectiva pré-milenista e pré-tribulacionista é a que tem base bíblica, harmonizando o Antigo e o Novo Testamento, sem anular, distorcer ou interpretar mal as promessas de Deus dadas a Israel”, defende Haake. “Ela também é consistente com a história e os acontecimentos dos nossos dias. Estou convencido por passagens como I Tessalonicenses 1:10 que a Igreja primitiva também cria que o arrebatamento viria antes da tribulação”, acredita.


“Relógio de Deus” – Essa é justamente a linha que seguem obras como Deixados para trás, misturando uma realidade fantástica e detalhes sobre o futuro com ensinos religiosos, o que as torna bastante atrativas como forma de despertar o interesse pelo assunto, esclarecer os crentes e até evangelizar. “Há muita ficção nestas obras, mas existem também coisas que chamam a atenção pela fidedignidade às Escrituras, como a restauração de Israel”, completa Ingo Haake, adepto da tese de que a nação judaica e o que acontece com ela funcionam como uma espécie de “relógio de Deus”. Mas apesar do sucesso, nem todos concordam com esse tipo de literatura. Pelo menos, é assim que pensam os adventistas do sétimo dia, importante ramo do protestantismo para quem alguns livros podem mais confundir do que esclarecer. “Não há qualquer passagem bíblica que ao menos sugira um arrebatamento secreto da Igreja anos antes da manifestação gloriosa de Jesus em sua segunda vinda, e em ocasião nenhuma. O único arrebatamento dos crentes de que fala a Bíblia é aquele constante em passagens como I Tessalonicenses 4.16 e 17, que poderá ser qualquer coisa, menos secreto”, contesta o professor José Carlos Ramos, diretor de mestrado e doutorado do Seminário Adventista Latino-americano de Teologia.

“Esse texto nos fala de alarido, do grego keleúsmati ou ‘grito de comando’, voz de arcanjo, sonido de trombetas, mortos ressuscitando, salvos ascendendo ao céu... Que há de secreto aqui?”, indaga. Polêmicas à parte, o fato é que o Apocalipse é algo tradicionalmente envolto em uma densa aura de mistérios. O texto revelado a João em seu exílio na Ilha de Patmos contém inúmeros símbolos e elementos misteriosos – anjos, demônios, dragões, bestas, criaturas humanas com feições animalescas e seres viventes carregados de simbolismo. Há todo um panorama cataclísmico, com estrelas caindo do céu, terremotos, águas se transformando em sangue e daí por diante. Para muita gente, a simples menção do nome Apocalipse já incomoda, pois evoca uma expectativa trágica. Justamente o contrário daquilo que o livro procura passar desde a sua introdução – as boas-novas da revelação de um futuro abençoado e eterno que Deus mesmo estabelecerá para aqueles que nele crêem.“Enfatizar a realidade destas coisas é fundamental, pois nos permite entender os reais objetivos de Deus para com a humanidade”, analisa o pastor Magno Paganelli, autor de ...E então virá o fim, publicado pela Editora Bompastor, no qual analisa os sinais da volta de Cristo e o cumprimento das profecias. “O Apocalipse lembra à Igreja sua responsabilidade de viver e anunciar a Palavra de Deus. É preciso que os crentes tenham a perspectiva do retorno do Senhor e da fundação do novo mundo que ele nos promete.” Para ele, mais importante do que acompanhar os acontecimentos, confrontando-os com o que diz a Palavra, é estar atento à dimensão espiritual do anunciado fim do mundo. “Não importa saber exatamente quando ele virá – até porque isso é do conhecimento apenas do Senhor. Mas nós, cristãos, devemos saber que toda a escatologia só tem significado quando sabemos, após tudo passar, a nossa vida eterna de fato começará”. (Colaboraram Carlos Fernandes e Claiton César)


Apocalipses para todos os gostos


Apocalipse é um termo grego que significa “revelação”. O livro bíblico que leva este nome foi escrito, provavelmente, pelo apóstolo João durante seu exílio na Ilha de Patmos, que atualmente faz parte do território turco. Ele foi mandado para lá devido à sua pregação cristã. Estima-se que João já era bem idoso por volta do ano 95 da Era Cristã, quando escreveu o livro. Seus textos proféticos guardam bastante relação com os de Daniel, que também foi incluído no cânon sagrado. Todavia, diversos outros escritos apocalípticos foram produzidos na Antigüidade. Entre os apocalipses judaicos, os mais famosos são I Enoque e o Livro dos Jubileus, escritos nos séculos 3 e 2 a.C. e que gozaram status de obras inspiradas junto às primeiras comunidades cristãs e a grupos como o dos essênios. Contudo, o caráter apócrifo de tais textos fez com que, no decorrer dos séculos, fossem considerados não-inspirados.No primeiro, o patriarca que, segundo o Gênesis, foi tomado por Deus para não ver a morte passeia pelos céus, guiado por um anjo chamado Uriel. Esta entidade teria poder sobre o dia e a noite, além de manter em suas órbitas todos os corpos celestes. Na obra, Enoque tem uma visão na qual observa Deus descendo com dez mil anjos sobre o monte Sinai para comandar o julgamento de todos aqueles que foram infiéis às leis de Deus. Já Jubileus tem a autoria falsamente atribuída a Moisés, que teria recebido a revelação através de anjos quando estava no mesmo monte Sinai. Parece, à primeira vista, um relato refeito da trajetória da humanidade decaída, do Gênesis ao Êxodo. Porém, fala muito sobre o juízo de Deus, com base em sua lei universal, observada até pelos anjos nos céus, e também, de forma esquisita, contra aqueles que teriam deixado o verdadeiro calendário solar para andar de acordo com um corrompido calendário lunar.Mas são os apocalipses cristãos que causam mais estranheza. Entre os mais famosos estão o Pastor de Hermas e os Apocalipses de Tomé, Pedro e Paulo. Sob forte influência gnóstica, corrente que espiritualizava exageradamente o cristianismo e afirmava ser detentora de revelações especiais, as obras são pródigas em fantasias. No Apocalipse de Pedro, Cristo alerta o apóstolo de que, no Juízo Final, uma grande escuridão cobriria o mundo e a água queimaria tudo que tocasse. Já em Tomé, quem rouba a cena são os anjos que guerreiam entre si em meio a uma chuva de sangue e sete dias de destruição sobre a Terra. Apenas no oitavo dia haveria bonança, com o ressoar de uma voz meiga e doce que libertará os eleitos. Já no de Paulo, não é número gnóstico 8 que tem importância, mas sim o 10, pois esse é o número de céus que o discípulo atravessa para se encontrar com Deus.


A besta e os impérios


O que há em comum entre o extinto Império Romano, os Estados Unidos de hoje e o Apocalipse? Muito, se forem ouvidos alguns intérpretes das profecias do fim do mundo. Diversos estudiosos comparam os EUA com o Império Romano de outrora e outorgam ao país um papel-chave no cumprimento das profecias bíblicas, como também o fazem a Roma e a Babilônia. Agora, tal comparação deixa o campo profético e subjetivo para ganhar ares sociológicos. A editora católica Paulus está lançando no Brasil o livro Jesus e o império, do anglicano Richard Horley, que traça uma série de impressionantes paralelos entre as características, o papel e a influência entre o antigo império dos césares e o novo, comandado por George W. Bush.Já quem deseja conhecer um pouco mais os bastidores e como funciona a maior potência militar de todos os tempos, pode recorrer a Plano de ataque (Editora Globo), um primor do jornalismo investigativo. Escrito por Bob Woodward, o célebre repórter que, através de suas matérias-denúncia, levou à renúncia o presidente Richard Nixon nos anos 1970, o livro baseia-se em 75 depoimentos e horas de entrevistas exclusivas com o próprio Bush e seus auxiliares diretos para reconstituir os 16 meses anteriores à Guerra do Iraque. Para quem tem alguma suspeita de que os EUA terá papel fundamental no fim do mundo, Plano de ataque é leitura obrigatória.


Sinais dos tempos


Diversos acontecimentos do século 20 têm sido interpretados como sinais dos tempos:

Guerras e rumores de guerras – O século 20 assistiu a duas grandes Guerras Mundiais e milhares de outros conflitos, que deixaram um saldo de 200 milhões de mortos

Fome – Dados da ONU apontam que, atualmente, 2 bilhões de pessoas sofrem com sérias carências alimentares. Só na África, populações em situação de risco alimentar são 70% do continente

Avanço da ciência – Desde que o mundo é mundo, a humanidade nunca acumulou tanto conhecimento como nos últimos 30 anos. A chegada do homem à Lua, em 1969, é considerada até hoje a imagem mais emblemática do avanço da ciência

Catástrofes climáticas – Desajustes ambientais provocados pela ação humana, como a poluição e o efeito estufa, põem a vida no planeta em risco

Pestes – Além do avanço das enfermidades infecto-contagiosas, sobretudo no Terceiro Mundo, doenças cardiovasculares e o câncer permanecem como principais causas de morte. A Aids, identificada pela primeira vez em 1981, já matou 20 milhões de pessoas e hoje infecta mais de 40 milhões

Restauração de Israel – A criação do Estado judeu, em 1948, costuma ser visto como cumprimento da profecia bíblica da figueira que haveria de frutificar. Para diversas correntes teológicas, a situação de Israel, sobretudo a construção do Templo que haverá de ocupar o espaço da Mesquita de Omar, é o “relógio de Deus” para o fim.
Marcos Stefano/Jornalista da revista Eclésia.